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11/nov/09 por Lima

GogoJob Entrevista: Mestre Edílson

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O senso comum nos diz que publicitário é uma classe egocêntrica. Algumas pessoas nos fazem acreditar mesmo nisso e a gente vai se acostumando a julgar os outros pela aparência. Eu mesmo, caí numa tremenda armadilha um dia desses: ao conhecer Mestre Edílson - ou somente Mestre -, ilustrador da Aliança, confesso que achei estranho esse senhor de 73 anos ainda trabalhar em publicidade, no meio de tanta gente nova, numa realidade onde tudo fica velho bem rápido. Ele não quer ficar velho. Não gosta que o chamem de senhor. Chamando de Mestre ele até atende.

Mestre nunca desenhou numa tablet. Não sabe usar um Mac. Mas é a prova viva de que os profissionais da sua época eram verdadeiros artistas, trabalhando sem a ajuda do computador, com suas habilidades manuais e suas próprias idéias, menos regidas pelas tantas “referências”.

Eu só vim perceber com quem estava falando, quando Mestre me mostrou um a um, seus desenhos, rabiscos e ilustrações coloridas em ecoline - material que talvez muitos dos profissionais de hoje nunca nem ouviram falar -, todos guardados em um envelope  comum, desses de escritório. Trabalhos muito acima da média, com uma qualidade superior ao que eu imaginava, um cuidado de quem faz as coisas com prazer. Foi aí que eu decidi pedir que ele me ensinasse um pouco sobre ilustração, publicidade e sobre a vida.

GGJ:  Você lembra quando começou em publicidade?
Mestre: Comecei cedo, numa agência chamada Lara, que ficava na Praça da Independência, décimo primeiro andar. Naquela época, a maioria das agências ficava na Cidade (centro). Eu já desenhava, mas não tinha técnica. Eu não ganhei dinheiro lá, fazia uma ou outra coisa, ficava olhando os outros trabalhando. Depois fui pra São Paulo. A primeira agência que bati na porta foi a McCann Erickson. Gostaram do meu trabalho, mas queriam que eu trabalhasse de graça, até começar a render. Eu não tinha dinheiro, então fui com a cara e a coragem. Tinha que me sustentar. Fui em algumas agências mas sempre ficava no “vamos ver”. Meu primeiro trabalho de verdade foi na Lince, onde aprendi o que era uma agência, pois eu não tinha muita noção. Comecei lá ganhando um salário mínimo. Dava pra sobreviver. Isso foi no ano de 1959.

Mestre

GogoJob:  O que te levou a trabalhar com isso?
Mestre:
Um amigo meu me encorajou. Disse, “olha, você desenha, vou te levar num lugar pra você conhecer”. Mas antes disso eu já prestava atenção no visual das coisas, gostava de ver as cores, achava bonito. Lembro de umas embalagens de “madapulão”. Colocaram esse nome num tecido grosso, que era importado da Polônia. Esse nome veio das etiquetas, onde vinha escrito “Made in Poland”. O nome pegou. O tecido vinha embalado num papel, impresso com umas fotos de mulheres, que pareciam desenhos. Eu queria fazer aquilo.

Trabalho com caneta esferográfica.

O carnaval de Mestre.

Paes Mendonça pintado por Mestre.

GogoJob: Qual a maior diferença do mercado na década em que você começou e na que você vive hoje?
Mestre:
As pessoas antes tinham mais consideração pelos outros. Trabalhei numa agência que já foi uma das maiores daqui, a Denison. Um dos diretores uma vez chegou pra mim e disse: “Você vai ver como essa empresa é. Nós somos uma família”. A agência tinha escritórios em várias partes do Brasil e até fora do país. Lembro, que uma vez, uma das pessoas importantes da agência aqui no Recife viajou com a família e, em cada cidade que parava, deixava uma carta de recomendação sobre mim, pra o caso de eu precisar ir morar em outro lugar.

GogoJob:  Nesses anos, muitos publicitários sentaram do seu lado. Qual surpreendeu mais você?
Mestre: Na Lince, trabalhei com dois argentinos: Arturo Leonel Alercio e Jose Diago. Eram muito bons. O pessoal brincava o tempo todo comigo. Diziam: “Esse menino vai longe, nem que seja lá pra Pernambuco”. Eu aprendi muito na Lince. Ítalo Bianchi também influenciou muita gente. Seu Luiz (Luiz Geraldo Vieira, fundador da Aliança) é uma pessoa importante na minha vida, foi quem começou isso aqui.

Uma das muitas ilustras de Mestre que tiveram destaque no Recife.

GogoJob: Qual a dica que você dá para quem está começando?
Mestre:
Procure inventar, inventar sempre. Isso é a alma da propaganda. Eu tive coragem de fazer coisa diferente. Eu lembro, que todo mundo fazia Papai Noel bonitinho. Uma vez, em São Paulo, fizeram uma propaganda com desenhos, com traços grosseiros, pinceladas fortes. Todo mundo ficou revoltado, falaram até mal. No outro ano, as outras agências fizeram daquele jeito. Eu trouxe esse traço pra cá. Fiz coisas diferentes.

Sorrizão do Mestre.

GogoJob: E para quem acha que já sabe muito, o que você diz?
Mestre:
Quem acha que sabe muito não sabe nada. Eu, até hoje, olho pra tudo pra poder aprender. Sempre tem coisa pra aprender.

GogoJob: O que você não fez, que ainda quer fazer em publicidade?
Mestre: Não sinto isso, eu acho que já fiz de tudo. Mas eu gosto de fazer, eu continuo fazendo. Eu nunca aprendi a mexer em computador. A Ítalo Bianchi foi a primeira a ter computador no Recife. Quando chegou, eu já tinha saído de lá. Aí fui pra um lugar e outro, e não usei.

GogoJob: Lembra de algum grande case?
Mestre:
Na Norton, em Fortaleza, tinha um redator muito bom chamado Nelson Porto. Ele era muito bom mesmo. Uma vez a gente tinha que fazer uma campanha, lançamento do loteamento Aldeota. O título de Nelson era mais ou menos assim: “O melhor negócio da terra é terra mesmo”. Isso era avançado pra aquele tempo. Os anúncios saíram no final de semana. Na segunda, a gente estava se arrumando pra continuar a campanha, fazer as peças que faltavam, e alguém interrompeu: "Não, não façam nada. Já venderam tudo nesse final de semana”.

Ilustração de Mestre.

GogoJob: O que te deixa saudoso?
Mestre:
Eu tenho saudade do coleguismo. Na minha época, se um ficasse trabalhando, ou outros ficavam. Nem que fosse pra um colar uma letra, ajudava. Isso era bom.

GogoJob:  O que te dá vontade de vir trabalhar amanhã?
Mestre:
Eu gosto. Eu venho porque eu gosto. Vou ter que parar um dia. Mas eu ainda aguento um bocado.

Mestre ainda pede para acrescentar um comentário, no final da conversa. Ele anota para mim num papel, exatamente isso:

"CONSIDERAÇÕES ESPECIAIS E MUITA ADMIRAÇÃO
Ítalo Bianchi e Joca; Pourchain, da Norton; Luiz Montenegro, da MMS; Ubirajara Monteiro e Bernardo Ludermir, da Denison; Antônio Vieira, da Arcos; Fernando Ramos e Luiz Geraldo, da Aliança.
A todos, só tenho a agradecer, e muito, pelos ensinamentos e dedicação em prol da comunicação."

Mestre, em sua sala na Aliança.

Quando terminei a entrevista, Mestre agradeceu, sorriu e voltou para a sua mesa. Foi arrumar seus lápis e pincéis, deixar a mesa em ordem. Tudo com a gentileza e o cuidado que provavelmente estiveram com ele a vida inteira. E a paciência de quem certamente sabe mais sobre o tempo do que nós.

(Entrevista feita por Anderson Lima (Caniço), VP de criação da agência Três Comunicação - João Pessoa)

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Nota do editor: o saudoso mestre Edilson faleceu em 2012. Para nós, foi um privilégio tê-lo entrevistado e um orgulho tê-lo no nosso mercado. Salve, Mestre!

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Comentários

  1. Autor:
    MarcoDedé
    Data:
    11/nov/09
    Hora:
    9:48

    Emocionante ein!
    Lição de vida!

  2. Autor:
    filipe c
    Data:
    11/nov/09
    Hora:
    9:52

    que ótima inciativa do gogojob.

  3. Autor:
    augusto
    Data:
    11/nov/09
    Hora:
    9:57

    Esse é o cara. Um verdadeiro exemplo.

  4. Autor:
    Greg
    Data:
    11/nov/09
    Hora:
    12:27

    Certamente, é nesse tipo de gente que eles dizem que nós deveríamos nos espelhar!

  5. Autor:
    José Carneiro
    Data:
    11/nov/09
    Hora:
    12:28

    Caro Bob. Parabéns, mais uma vez. Talento não tem idade. E respeito e reconhecimento são valores raros hoje em dia. Parabéns mesmo.

  6. Autor:
    pedro lazera
    Data:
    11/nov/09
    Hora:
    14:42

    Eu já tive o prazer de trabalhar com o Mestre. E posso dizer que, sem dúvida, foi uma das pessoas que fiquei mais feliz de conhecer na propaganda. Além de talentoso, tem um coração enorme. Jamais toma água, só café. É tricolor, mas carrega na carteira uma foto do time do Sport de 1950. E é, até hoje, apaixonado por Cecília (perguntem a ele essa história). Um grande abraço ao Mestre e parabéns ao Lima pela entrevista.

  7. Autor:
    Leo Parnes
    Data:
    11/nov/09
    Hora:
    17:07

    A prova de que talento não envelhece. O que envelhece é a cabeça das pessoas. E essa cabeça é novinha. Não é à toa que o chamam de mestre. Um abraço, mestre.

  8. Autor:
    Claudia Aires
    Data:
    11/nov/09
    Hora:
    17:16

    Emocionante mesmo!!
    E que trompetista é esse??!! Muito Bom!
    Parabéns, Caniço... sei que tu chorou!! ehehehhe

    bjs aos GogoJobers

  9. Autor:
    Léo Miranda
    Data:
    18/jan/10
    Hora:
    17:10

    Tive a chance de começar minha carreira na mesma agência desse grande mestre. Ele, o GRANDE-CAMEDOR.
    Essa lembrança é mais do que mereceida. E digo mais: na volta do Bloco do Tesão (antigo bloco de carnaval dos publicitários), devemos continuar essa homeagem a ele e, claro, pedir ao mestre que faça a ilustra da volta do bloco. Parebéns, Edilson do Coutoquinho. Léo Miranda.

  10. Autor:
    Any Perla
    Data:
    18/jan/10
    Hora:
    17:15

    Pois é, o Mestrinho é mesmo isso tudo aí. Tive o prazer de trabalhar com ele durante 05 anos na Aliança. Além de talentoso, é um ser humano lindo! Tenho até hoje em minha sala 10 ilustrações que ele me presenteou e que mandei emoldurar. Obrigada, Mestrinho!!! Parabéns ao pessoal do GGJ.

  11. Autor:
    Newton Vaz
    Data:
    18/jan/10
    Hora:
    17:22

    Uma lição de vida para quem trabalhou com "o Mestre". Sabe o significado da paixão e do profissionalismo pelo que faz. Grande abraço e parabéns pela iniciativa.

  12. Autor:
    Loi
    Data:
    03/set/10
    Hora:
    15:36

    Ele é muito citado nos projetos de monografia lá da faculdade, especialmente quando se trata a respeito de publicidade e sua história. Um parabéns pela ótima entrevista e pelo fantástico talento que esse homem tem. Lição de vida mesmo!

  13. Autor:
    @JulieneBernound
    Data:
    03/set/10
    Hora:
    18:51

    Ótima entrevista e uma emocionante história.

  14. Autor:
    Lima
    Cidade:
    Maputo
    Estado:
    Maputo
    Data:
    14/abr/12
    Hora:
    17:00

    Até logo, Mestre.

  15. Autor:
    Guto
    Data:
    16/abr/12
    Hora:
    20:05

    Um exemplo a ser sguido por quem ficou aqui embaixo.

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