/Formação

29/ago/10 por Bob Ferraz

Produto de exportação: Filipe Biondi

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1) Faça uma trajetória da sua carreira até hoje.

Sempre fui o menino que desenhava. Era muito tímido e enrolado pra ser “cool” no colégio, só não passei desapercebido por conta dos desenhos. Mas ao contrário da maioria das crianças com algum jeito pra arte, não tinha muito apoio além do desenho como passa-tempo. Por muitos anos ouvi que desenhar não dava futuro: “Não siga o exemplo de seu pai, que é artista, não tem horas e responsabilidades”.

Mas a verdade é que aos 16 anos, no auge da minha maturidade pra escolher minha profissão, descobri que a única coisa que eu sabia fazer relativamente bem era desenhar. E com isso acabei entrando na UFPE e me formei em design gráfico.

Aos 17 anos resolvi aprender o Corel-Draw III. Virei monitor, instrutor, dei aula pra velho, criança e comecei a trabalhar num pequeno birô gráfico onde fazia arte final. Pouco depois, fui contratado numa fábrica de placas, meu primeiro emprego com salário, carteira e botando coisas grandes na rua. Fazia sinalizações de lojas, shoppings, etc. Com o tempo, vi que já tinha pernas pra andar sozinho. Tirei um tempo pra viajar e, quando voltei, dei um corte grande no salário, virando estagiário no setor de comunicação visual do grupo Bompreço.

O Bompreço foi onde tudo começou de verdade, aos 20 anos. Eu ajudava os sêniors e criava umas besteiras aqui e ali. Um dia me pediram pra fazer uma sinalização diferente, mas só pra cumprir tabela, mostrar opção, pois o que ia ser apresentado já era o escolhido internamente. Pouco depois, me surpreendi: inauguraram um supermercado em Salvador com a sinalização que criei. Ganhei mais espaço e, logo depois, fiz o meu primeiro hipermercado, que era o maior do Brasil, na época. Com o tempo, migrei pro setor de merchandising, o que pra mim foi outra escola. Mais uma vez tinha de ir aprendendo tudo sozinho, pois era "um setor de um cara só". Ia vendo o que faziam de bom por aí e tocando do meu jeito, na cara e no Corel.

Pouco tempo depois, abri um pequeno escritório. Fazia design e o que aparecesse pela frente. Por dois anos, tive uma vida bem legal, até que notei que tinha estacionado profissionalmente. Já tinha uns 25 anos e resolvi dar um tempo. Fiz um mochilão pela Europa por 3 meses e voltei com a experiência na cabeça. Queria experimentar publicidade. Como não queria começar do zero, acabei entrando na Morya, que tinha a conta do Bompreço e aí se justificava pagar um salário a um diretor de arte que nunca tinha sido diretor de arte.

Lá conheci o diretor de arte Alexandre Pons, que passou um mês na agência. Um cara com um bom gosto incrível e que detonava no Photoshop. Isso acendeu a vontade de melhorar de novo e de ir mais longe. Ficava sempre de olho no que ele fazia e, com o tempo, comecei a perguntar das fontes onde ele bebia (fora a Heineken), pedir toques, etc. Foi um período curto, mas que me fez querer crescer.

Mas agência não oferecia oportunidades: único cliente, grande e complicado. Resolvi passar outro tempo fora. Pedi demissão e tirei um mês no campo, pra poder fazer um portfólio de peças fantasmas, pra ter algo mais “criativo” pra mostrar. Fui bater em Toronto. Era pra ser um mês de aulas de inglês, mas claro que queria mostrar a pasta também. Só que ninguém me recebia, e resolvi mandar por e-mail mesmo. Funcionou e, na sorte, me chamaram em Calgary. Chamava-se Push, uma agência pequena mas muito criativa, que havia sido comprada pela Rare Method. O que eram pra ser um tempinho, se transformou em quase dois anos.

Então comecei a conviver com uma realidade nova: tempo mais justo pra fazer o trabalho, trabalhar até as 5 da tarde e usar o tempo livre pra fazer fantasmas ou caprichar numa proposta diferente. Essa foi a primeira virada profissional que tive em publicidade. Comecei a pirar, ver tudo o que tava rolando por aí, devorando anuário, e comecei a notar que tudo que se vê na rua podia dar uma idéia legal.

Vinha passando por uma tranformação. O tempo se tornava curto e o trabalho cada vês mais simples e sem verba. Nesse meio tempo, uma agência da Escócia colocou no “CCSP” daqui um anúncio, pois queriam escolher uma dupla do Canadá pra passar um período criando pra conta da Subway em UK. Fui escolhido com meu dupla e vi, pela primeira vez, como gente grande devia brincar esse jogo. Chamaram um planejamento que era dos EUA (que estava trabalhando na Ásia e um diretor da conta de Londres. Fora o time da Escócia, estava lá meu redator Canadense e eu, me sentindo num capítulo do Albergue Espanhol. Cada vêz que alguém abria a boca pra falar de alguma experiência própria, saía: McDonald's, Toyota, Nike... Enfim, parecia um sonho trabalhar sabendo exatamente o objetivo. Mas no fim dos dias, trabalho virava conversa. E na mesa de bar, com essa turma da pesada, eu via que aquilo não era pra mim. Os caras sem família, ou com uma filha novinha morando num país e ele noutro. O preço de viver pra o trabalho pareceu muito alto pra mim e me vi numa encruzilhada: continuar rodando o mundo, ou procurar me achar em algum lugar?

E resolvi voltar ao Brasil pra passar uma temporada e ajeitar meu lado pessoal. Minha fase no Canadá rendeu muitas peças no Napasta e isso facilitou muito minha chegada. Já vim direto pra RGA, que na época foi uma pauleira, mas que tinha um grupo muito massa. Aprendemos muito com um grande profissional, uma espécie de Dr. House da publicidade Recifence, o Ricardo Rique. "Você vai sofrer, mas vai sair melhor do que quando entrou." Esse era o clima. Mas eu não tinha voltado pra isso, e acabei saindo cedo de lá, o que foi bom por um lado, pois tive a chance de passar por outras agências até parar na Ampla, onde fiquei um bom tempo. Uma coisa legal no Recife era enfim trabalhar com uma galera melhor que você em certas áreas do ramo, pois isso me instigava a querer ir mais longe. Isso é algo que sempre senti muita falta: não ter feito o caminho normal de publicidade e ter trabalhado em agências com foco mais criativo. Tem peças legais que eu fiz que nunca pude inscrever em nada, porque os lugares que passei não acreditavam muito nisso.

Mas a verdade é que não curtia muito Recife, e apareceu uma chance em 2008 de voltar pra Calgary, pra trabalhar na Watermark. Salário bacana, uma lógica diferente de trabalhar como agência, com muita coisa pra aprender em mídia e pesquisa. Tudo em cima de números, cifras, dados. Foi lá onde aprendi que um anúncio feioso, com a estratégia certa e a marca grande, bem grande, tende a ter mais efeito que uma campanha redondinha da Gap circulando em todas as mídias e recebendo elogios do público. Tudo isso no pior ambiente criativo que já passei: uma sala só pra mim, onde pra contar uma piada precisava marcar uma reunião primeiro. Ou seja, bom pra aprender algumas coisas, mas um suicídio criativo. Mas isso tá prestes a mudar de rota, pois neste ano quero mudar de país outra vez.

2) Quais foram as maiores dificuldades que sentiu quando chegou?

Trabalhar em outra língua; jogar vôlei na areia; melhorar meu inglês que era fraquinho; alugar um apartamento; comprar um celular e explicar minhas idéias no trabalho. Já sou ruim de explicar minhas ideias em português, em inglês então... A questão do vôlei era que trabalhar com publicidade no Brasil lhe tira muito tempo e, sem perceber, você fica muito fora de forma. Aqui a galera quer viver. Se o trabalho não deixa, então se deixa o trabalho.

3) E as oportunidades?

Eu sou um observador por vocação. Adoro viajar, ver outras culturas e outras realidades sociais. Imergir numa dessas culturas lhe proporciona uma visão diferente do que se teria como um turista. Tudo é lição: pessoal e profissional. São novas informações, comparações e reflexões. Fora que estar longe de suas raízes também lhe deixa longe de suas rotinas, daí você tem muito mais tempo livre. Esse é o lado legal de estar só: além de estar conhecendo um monte de coisas novas, ainda arruma tempo pra conhecer melhor a você mesmo.

4) Uma curiosidade.

Uma vez, numa concorrência, não curtia muito a idéia do diretor de criação e resolvi ficar até mais tarde, fazer a dele e depois uma minha. No fim, já era madrugada. Dormi na agência duas horinhas e entreguei tudo no outro dia. Fui ao Brasil e depois de um tempo fora da agência, volto e encontro bocado de gente nova trabalhando lá. Um cara olha pra mim e pergunta: "Foi você que uma vez dormiu na agência?" Parecia que eu tinha feito uma coisa de outro mundo. Talvez eles estivessem certos. Eu ainda disse algo do tipo: "No mundo de onde eu venho, isso é rotina."

5) O maior desafio.

Tentar achar o equilíbrio entre curtir a vida e o trabalho. Onde um não faça você ter de deixar o outro pra segundo plano.

6) O que o mercado nordestino pode aprender com esse mercado?

A organização das horas alocadas por serviço; a forma de negociar com o cliente; a forma de tratar o profissional como um parceiro, não como escravo; a clareza dos valores que vão ser trabalhados; as pesquisas e dados que deveriam ser coletados antes de se botar a mão na massa.

7) O que esse mercado pode aprender com o nordestino?

A desorganização das horas alocadas, podendo usar o tempo que der na telha pra fazer algo ficar legal; a vontade de espremer até sair algo; e a criatividade pra fazer algo acontecer, mesmo que precise pedir um favorinho aqui e ali.

8) Já pensou em desistir e voltar?

Eu sempre volto, aqui e ali. Acontece alguma coisa e tou arrumando as malas de novo. Até porque tem família, têm amigos. Mas a verdade é que não gosto do Recife. Desde adolescente eu dizia que meu lugar não era lá. Então só volto por casualidades, não por desistência. Devo até estar voltando antes do meio desse ano para uma temporada.

9) O que os diretores criativos daí querem ver nas pastas?

Pra agência grande é idéia bacana. Se possível, visual, sem ter de ler muito pra entender. Se gostarem, aí te pedem mais coisa pra ver como você vai se sair no dia-a-dia. No meu caso, tenho de admitir que a pasta bem variada ajudou muito: marcas, ilustras, design, etc. Para agências pequenas e médias, mesmo aqui, ainda é favorável você se vender como "Bombril".

10) Três conselhos para quem deseja seguir os seus passos.

- Procurar descobrir o que te faz bem, pra poder traçar uma meta.
- Trabalhar muito pra conseguir.
- E não ter medo de arriscar o que se tem, se você está fazendo isso pra ir mais longe.

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11

Comentários

  1. Autor:
    Alexandre Pons
    Data:
    29/ago/10
    Hora:
    14:03

    Linda a entrevista, Fi. Fiquei emocionado em saber que ajudei um grande monstro a ir mais longe. É assim que te vejo, irmão, um cara de um talento magnífico, uma versatilidade e bom gosto invejáveis, e uma conversa sempre do bem e verdadeira. Uma grande abraço do sempre amigo, irmão, parceiro e grande admirador do seu trabalho.

  2. Autor:
    Luiz Soares
    Data:
    29/ago/10
    Hora:
    15:38

    Cara, sabe aqueles momentos em que as coisas acontecem na hora certa? Foi esse depoimento que surgiu pra dar um UP onde existe aquele momento de dúvida. Mto bom ver essa sua experiëncia de vida que nos faz refletir um pouco sobre nossa história e ir em busca de nosso ideal. Valeu, cara, mto bom!

  3. Autor:
    Ramona
    Data:
    29/ago/10
    Hora:
    16:19

    Adorei a entrevista e os ensinamentos. Me identifiquei muito com a história do Filipe, pois eu tmb sou formada em design e migrei meio que por acaso na publicidade (direção de arte) e sinto cada vez mais o peso de tentar equilibrar vida x trabalho.

  4. Autor:
    Gean Swamy
    Data:
    29/ago/10
    Hora:
    16:24

    Fico feliz por vc chegar longe. Parabéns... + Faltou o Finalista q tira onda né...ahUHAUhuahUHAU

  5. Autor:
    André Muhle
    Data:
    29/ago/10
    Hora:
    17:28

    E o terreno de Gravatá, ainda tá de pé?

  6. Autor:
    Duda Buarque
    Data:
    30/ago/10
    Hora:
    2:16

    Do caralho, Biondi. Li cada linha como se tu tivesse escrevendo pra mim. E tu tá me entendendo, que eu sei.
    Bob querido, mais uma vez arrasou na escolha do entrevistado.

    Beijo em vocês.

  7. Autor:
    Betinho
    Data:
    30/ago/10
    Hora:
    10:51

    Faltou falar dos calor do Recife.
    Grande abraço.

  8. Autor:
    Sonia Bierbard
    Data:
    30/ago/10
    Hora:
    11:42

    Fi, querido. Adorei te reencontrar nesta entrevita. Nosso tempo duplando na Morya, foi muito instigante, verdadeiro e rico. Até as discussões. Fico feliz em dizer da minha admiraçao e amizade sinceras. Parabéns pela garra e desejo de ser melhor, sempre.

  9. Autor:
    Daniel Gonçalves
    Data:
    30/ago/10
    Hora:
    13:01

    Fico muito feliz Bionde!

    Lembro do período que trabalhei com você na Morya (naquele momento era chamada de publivendas), e não tinha dúvidas que você iria se tornar uma referência profissional e pessoal.

    Parabéns

  10. Autor:
    Igor
    Data:
    30/ago/10
    Hora:
    14:11

    Mestre Biondi,
    mesmo que por pouco tempo, tenho orgulho de ter duplado com esse cara.
    Grande figura e gente da melhor qualidade.

    Muito legal a entrevista.
    Abraço, meu velho.

  11. Autor:
    Erick Levay
    Data:
    06/set/10
    Hora:
    12:44

    Você esqueceu dos Jobs de LC e LUCE...hehehe!
    Cara, bom saber notícias suas e através de uma história muito bacana. Fico feliz por você e que sua trajetória de sucesso continue. Forte abraço.
    P.S.: Sobre aquele assunto meu e de Max, ta tudo certo, ou ficou faltando algo?

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