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09/ago/11 por Ana Jacque

Sobreviva ao bloqueio criativo

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O que os escritores ensinam sobre vencer a falta de inspiração.

Quem já não sofreu de uma repentina falta de “inspiração”, como diriam os poetas? Muita gente já passou por uma sensação de impotência diante de uma atividade para a qual a pessoa não só está preparada, como se espera dela a máxima competência. O bloqueio criativo não é exclusivo dos artistas. Mas talvez os escritores se destaquem de todo o catálogo de tipos humanos adultos, racionais e ativos por sofrer desse mal de um modo ainda mais dramático. Ou, pelo menos, porque eles, os autores, têm escrito mais que qualquer um sobre o assunto. Tenho conversado com vários escritores sobre esse problema, para tentar compreender suas causas, e tentar assim me curar, sobreviver ao bloqueio criativo. Ele seria um distúrbio meramente psicológico ou da química dos neurotransmissores? Uma questão filosófica? Ou linguística? A escrita literária é por acaso mais desafiadora que as outras modalidades de linguagem? Os autores tentam responder a essas perguntas para depois me revelarem seus métodos para contornar “o pânico diante da página em branco”, como dizem.

Falei na semana passada com o argentino Ricardo Piglia. Ele está lançando no Brasil o romance Alvo noturno, pela Companhia das Letras. A primeira edição da obra, em espanhol, aconteceu no ano passado. A ocasião foi festejada pelos críticos e leitores, porque Piglia retornava à ficção, e a seu personagem, o jornalista Emilio Renzi, depois de 13 anos de crise criativa. Piglia atribuiu sua “travada” ao excesso de trabalho como professor da Universidade Princeton, de Nova Jersey, de 1997 até 2010. “A rotina como professor me fez deixar de lado a escrita criativa, talvez porque eu tenha me dedicado a analisar a ficção alheia.” Ele teve a ideia do livro a partir de uma experiência pessoal: lembrou-se de um primo que tinha uma fábrica no interior da Argentina. “A paixão dele pelo negócio era tamanho, que passou a morar dentro do prédio da fábrica, mesmo depois de falir.” Com esse núcleo, Piglia se valeu da narrativa da investigação de um mistério para representar a alegoria dos sonhos empreendedores da América Latina, que quase sempre resultam em fracasso. Trabalhou ao longo dos anos na história, tentou desenvolvê-la. Enquanto isso, os leitores e os críticos cobravam resultados, contribuindo para que o escritor ficasse ainda mais paralisado. Ele inventou várias desculpas e várias histórias diferentes para dar uma satisfação ao público. “Eu não acho necessário um escritor publicar o tempo todo. Gosto de construir minha obra com cuidado, criando camadas de textos. Só me dei por satisfeito na quarta versão da história.” Assim, o excesso de autocrítica, diz Piglia, pode bloquear um escritor. Ele só se sentiu livre quando voltou a morar em Buenos Aires, e então pôde concluir seu livro.

Infelizmente, o exemplo de superação de Piglia não é regra. Há casos de autores que brilham na juventude. Alguns desistem, como o poeta francês Arthur Rimbaud, que parou de escrever aos 19 anos para se dedicar ao contrabando de armas na Abissínia. Rimbaud dizia que havia esgotado seus recursos líricos. E talvez tenha sido uma decisão sábia, porque ele ficou famoso pela obra juvenil, tida como o momento inaugural do modernismo. Há outros que fazem furor na juventude e insistem em continuar, mas empacam na maturidade: Francis Scott Fitzgerald fez sucesso aos 20 anos com seus contos e romances que captaram o espírito da Era do Jazz, os anos 20. Aos 40 anos, Scott amargou o bloqueio criativo. Em seus últimos escritos, declarou sua impotência: “Sem escolha, sem rumo, sem esperança.” A decadência literária o levou ao alcoolismo e à morte em 1940, aos 44 anos. O inglês Samuel Taylor Coleridge (1772-1834) ficou famoso pelos poemas que fez até os vinte e poucos anos. Depois, ficava literalmente paralisado quando tentava empunhar a pena para escrever poesia. Só destravava quando fazia crítica literária e crônicas... movido a ópio. “Ó tristeza, ó vergonha... não fiz nada!”, escreveu Coleridge em seu diário, quando contava 34 anos. E foi de culpa em culpa que passou o resto de sua vida. O brasileiro Aluísio Azevedo (1857-1913) se destacou como líder da narrativa naturalista com obras como O mulato (1881) e O cortiço (1890). De repente, em 1895, aos 38 anos, publicou seu derradeiro livro, o romance humorístico Livro de uma sogra. Nunca mais conseguiu escrever ficção. Morou na Itália e viajou ao Japão e deixou alguns relatos de viagem, insípidos perto da força que exibira como contador de histórias.

O escritor paulistano Reinaldo Moraes me disse que parou pelo excesso de vida boêmia. “Bebi e cheirei, me envolvi com a noite e deixei de publicar”, diz. “Posso ter sofrido um bloqueio criativo, mas foi consciente.”, ídolo de minha geração, uma espécie de William Burroughs brasileiro dos anos 80, Moraes (nascido em 15 de janeiro de 1950) é autor do grande pequeno romance brasileiro dos anos 80, Tanto faz (1981). Em 1985, ainda publicaria Abacaxi, para depois parar por 24 anos. Retornou em 2009 com uma obra que recomendo não só pelo alto valor literário, como pelo exemplo de resolução do bloqueio criativo: Pornopopeia, um romance picaresco e delirante sobre um boêmio chamado Zeca e suas aventuras pela vida errática do Brasil no final do século XX. A narrativa explode em uma nova linguagem, em vocabulário e diálogos improváveis, como se Reinaldo Moraes estivesse com tudo isso represado. Uma explosão criativa. Tanto assim que ele já está preparando dois volumes, para montar uma trilogia, de que Pornopopeia será o primeiro.

Moraes acha que viveu menos um problema psíquico que literário. Não conseguia criar um conjunto de tramas suficiente para gerar um romance. Os estudiosos do tema, porém, enxergam nele uma questão psicanalítica. Joan Acocella, no artigo “Blocked” (Bloqueado), publicado na revista The New Yorker de 14 de junho de 2004, aponta com criador do termo “inibição criativa”, nos anos 1940, o estudioso austríaco Edmund Bergler. Ele atribuiu o bloqueio à perda da cena originária. O escritor travado viveria de suas reminiscências de bebê separado do seio materno. Para se vingar da falta do prazer proporcionado pelo leite da mãe, o artista da escrita faria uma greve de fome em um ato de masoquismo oral. Bergler dizia que nunca havia analisado um escritor que pudesse ser chamado de “normal”. Eles seriam vítima de um sofrimento terrível, devido a recalques sexuais. Em compensação, os autores que conseguem superar a neurose e conseguiam realizar seus projetos podem viver uma espécie de “prazer megalomaníaco da criação”, uma sensação que os faria sentirem-se verdadeiros deuses. Há um rol de “deuses” literários que ultrapassaram suas limitações de imaginação, como Anthony Trollope, Charles Dickens, José de Alencar e Joyce Carol Oates, e escreveram sem parar e sem dúvida.

Os autores com quem conversei – alguns preferem manter o anonimato – são unânimes em dizer que a rotina pode resolver muitas inibições. “Acordo cedo e escrevo no mínimo quatro horas por dia”, diz Ricardo Piglia. “Não há nada como uma manhã silenciosa.” Para o jornalista Fernando Morais, além da rotina férrea, é preciso criar estímulos para fazer o trabalho. “Escrever para mim representa uma dor física”, afirma. “Por isso, procuro sempre terminar minhas sessões matinais de escrita com um ponto culminante na história que estou narrando. Dessa forma, crio um gancho para mim mesmo, como se eu fosse um leitor. Sinto vontade de voltar ao trabalho na manhã seguinte, ou mesmo nos retoques que dou ao texto à noite, para retomar a história.”

Um dos segredos para desbloquear a imaginação é certamente a obrigação de trabalhar e de viver da escrita. Talvez por isso eu drible minha falta de criatividade neste instante, escrevendo a presente crônica sem parar...

Fonte: Revista Época, coluna de Luís Antônio Giron.

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Comentários

  1. Autor:
    jose luiz
    Cidade:
    recife
    Estado:
    pe
    Data:
    15/ago/11
    Hora:
    18:23

    a questao de inspiração está interligada ao conceito de inteligencia emocional, ja que aquilo que mais nos inspira é justamente quilo de que mais gostamos, portanto é interessante esta postagem por abranger uma gama maior do que simples "inspiração", que pode ser apenas um insght momentaneo. observo que vc continua buscando informaçoes interessantes para o gogojob, isto é inspiração. é bom recordar destes momentos de desilusao quanto a inspiração: Van Gogh. perdeu um amigo ao ser traido por este e perdeu toda motivação e inspiração para pintar. valeu mais uma vez, Ana. tô lendo tudo q vc tem postado. vou ler outros artigos dos seus amigos p/ ninguem sentir-se "desinspirado". tchau

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