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14/ago/12 por Bob Ferraz

Anderson Lima: do Nordeste pra África, da África pro Nordeste

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O GogoJob entrevistou Anderson Lima, mais conhecido como "Caniço", um dos criativos mais andarilhos do mercado nordestino. Há pouco mais de 1 mês ele deixou a direção criativa da DDB em Moçambique e agora enfrenta mais uma mudança. Falamos das suas expectativas, planos e algumas opiniões muito próprias. Caniço, que é diretor de arte e ilustrador, já passou por várias agências de João Pessoa, Maceió e Recife, e acaba de regressar para o seu novo desafio: ser VP de criação da agência Três Comunicação, em João Pessoa.

Mudar de novo?

Sempre que for necessário. Estou quase perdendo a conta das agências onde trabalhei, mas os projetos em que tenho me envolvido têm cada vez mais compromisso com minhas crenças. É um caminho diferente, parece mais tortuoso... E é, mas é o mais sincero. Pelo menos é essa história que tenho contado pra minha mulher, toda vez que nos mudamos.

Há pouco tempo você era diretor de criação de uma DDB. Sair do grupo Omnicom para uma agência de um mercado menor não parece estranho?

Eu diria que "arriscado" é melhor que estranho.

Trocar uma grande agência por um mercado menor é assumir o confronto com antigos vilões - comodismos, verbas e prazos curtos, principalmente -, e saber que a probabilidade dos nossos planos serem utópicos demais está sempre ali, nos assombrando.

Mas assumir esse risco tem um sentido. A chance de interferir muito mais numa agência é o que me atrai num mercado pequeno. Há problemas que se repetem praticamente em todas as agências onde trabalhei, problemas que hoje tolero muito pouco e gostaria de brigar com eles pessoalmente.

Interferir, como? E que problemas são esses?

Acredito numas idéias que alguns dos meus antigos chefes não acreditavam. Então, os passos que quero dar não seriam possíveis passando pela quantidade de peneiras que geralmente nos deparamos em agências mais tradicionais, ou maiores. Interferir é sugerir mudanças que não acabam num "vamos guardar essa idéia e usar depois". Esse "depois", hoje em dia é muito longe.

E os problemas, falaremos deles depois.

Vamos dizer que você elimine essas "peneiras" na agência. Mas há ainda a peneira do cliente.

Há em qualquer negócio, em qualquer mercado.

Qualquer boa idéia pode simplesmente não funcionar. Transparecemos demais o quanto estamos focados apenas em criar coisas premiáveis e perdemos a confiança do cliente sobre a funcionalidade do que criamos. Quando o cliente aposta numa idéia mais ousada e recebe zero de retorno, pode até ficar orgulhoso com um prêmio, mas continua esperando o resultado. Aprovar uma idéia ousada que não deu em nada é estragar um cliente, fazer com que ele acredite menos em comunicação. Aí, dá no que deu, no que é o mercado nordestino de hoje. Precisamos tomar mais uns cafés com os planejamentos. A imensa maioria dos trabalhos criativos realizados no Nordeste hoje, ou não faz diferença, ou depende da sorte.

Ah, e a peneira do cliente não pode ser desculpa pra trabalho irrelevante. As melhores músicas de Chico (Buarque) foram feitas na época da censura.

Mesmo as boas idéias, as que funcionam, precisam de aprovação. Como convencer um cliente?

Grandes idéias não cabem em cabeças pequenas. Não adianta revolta, tristeza, indignação. Adianta a adequação ao mercado, ou uma relação de confiança entre cliente e agência.

Há sempre uma boa idéia no nível de aceitação desse ou daquele cliente. E olha, não é só o cliente que precisa abrir a cabeça para as grandes idéias, nós também precisamos abrir a nossa para a realidade. Não estamos em NY. Nem todo cliente precisa de um "Xixi no Banho".

Não é um trabalho de convencimento, é de conscientização.

Como é essa adequação? Idéias mais baratas, mais simples ou menos ousadas?

Fizemos um cartaz com seios reais à mostra, num mercado em que qualquer coisa menos tradicional desperta medo, dúvidas e reprovação. É a única peça que me satisfez, nos últimos anos. Foi feita a partir de um brief de verdade. Acabou sendo escolhida como a melhor do Festival de Cannes, dentre as peças expostas (clique aqui e veja mais http://www.act-responsible.org/ACT/ACTEXPO/CANNESTRIBUTE.htm). Quando eu e Zeca estávamos criando, minha intenção foi sempre a de responder ao problema "como fazer uma mulher parar de novo para pensar em câncer de mama, sendo um tema tão abordado?" Normalmente, alguns colegas se fariam a pergunta "como isso dá Leão em Cannes?" Idéias pequenas, baratas, simples, complicadas, ousadas; tudo depende do problema que temos que resolver. Nós atendemos clientes, não atendemos nossa pasta. Dá para fazer um bom trabalho, mesmo em mercados menores, mesmo atendendo aos briefs. Aliás, acho que este é o ponto principal: atender aos briefs.

E o que te faz acreditar que é possível fazer isso no Nordeste?

Na verdade, o que me motiva mais nesse sentido é saber que, se eu conseguir fazer algo diferente no Nordeste, provavelmente vou receber mais retorno que fazer o mesmo num mercado maior. Tenho amigos talentosíssimos virando noite em São Paulo, ganhando pouco e abrindo mão de coisas por objetivos nada claros. Não tenho muitas ilusões. Meu objetivo é fazer um trabalho relevante, interessante, desejável. Parece pouco, mas quantos trabalhos atingiram esse nível nos últimos anos aqui no Nordeste?

E onde vai acontecer isso tudo?

Já está acontecendo. Vejo gente saindo de agências ditas tradicionais, criando estúdios focados em especialidades ou multidisciplinares. A diferença é que esses caras fazem o próprio horário (trabalham muito, mas são donos do próprio resultado), conhecem o cliente, se relacionam com diversos fornecedores, são menos viciados nos formatos antigos. Eles fazem muitas vezes numa sala pequena o que agências com 20 anos de experiência não conseguem mais fazer: surpreender. Os estúdios e agências menores (os bons) têm um papel importante na evolução dos mercados. Também vejo alguns dos grandes escritórios se movimentando, criando departamentos digitais, por exemplo; já é um passo à frente. Agora sou VP de criação na Três comunicação; se acredito nisto tudo, é sinal de que coisa parecida acontecerá na Três. Quero fazer parte dessa turma, quero estar no barco que não afundou.

Quais são os barcos que irão afundar?

Dá pra enxergar uns botes furados.

As agências usam as horas extras da equipe como capital de giro. Cansei de ouvir que hora extra não se paga em agência de publicidade, como se houvesse uma lei especial pra essas empresas. Mesmo os que gostam da profissão perdem o estímulo sentindo que fazem papel de bobo. Não sei se muitos já perceberam, mas esse quadro está empurrando algumas boas cabeças para seus próprios negócios. Não vai demorar para esses estúdios tomarem contas importantes para as grandes agências.

Outro bote furado é o do achismo. O Nordeste se acostumou ao achismo. O cliente acha que tem um problema e a agência responde com uma campanha que ela acha que funciona. Sem pesquisa, sem posicionamento de marca, sem acompanhamento de resultados. Aí chegam as redes sociais cheias de ferramentas de mensuração. Resultado: os clientes vão aprender a esperar resultados concretos. E a turma do offline vai ganhar uma boa quantidade de cabelos brancos.

E quais os barcos que vão sobreviver a essa maré?

Se eu tiver que apostar, aposto nos menores e mais diferentes.

Falando em mercado moderno e mercado tradicional: o que mais nos prende no passado e o que pode nos empurrar pro futuro?

Vão querer me matar pelo que vou dizer aqui, mas não me sai da cabeça. O que nos prende mais no passado são as premiações, nada nos atrasa mais que os prêmios. São eles, ao meu ver, que ajudam a deturpar os objetivos da nossa profissão. Realização profissional não faz mal a ninguém, já troquei de emprego algumas vezes porque me sentia melhor noutro lugar, mas na prática, o que paga as contas, a viagem à Europa, a prestação do apartamento e tudo isso, vem do dinheiro. "Aqui você ganha visibilidade", "estamos fazendo umas coisas pra prêmio", "esse cliente paga mal mas faz coisa bacana", isso um dia tem que se converter em dinheiro. Não precisamos de prêmios pra fazer bem o nosso trabalho. É obrigação.

Duas coisas provavelmente vão nos empurrar pro futuro. Uma é o saco cheio dessa relação atual entre cliente/agência/funcionário. Vamos ter que nos mover de forma mais independente, realizar coisas em grupos menores, depender menos de um empregador, assim vamos nos forçar a trabalhar com o que realmente gostamos. Outra coisa é essa geração que vem aí, mais nova. Nós somos do impresso, do filme, da sacadinha, eles são da mensuração de acessos, da movimentação de público, da criatividade e interação tendo a mesma importância.

Você fala de todas essas mudanças, mas mudou para o Nordeste do Brasil, e não para São Paulo, onde provavelmente algumas dessas mudanças estão acontecendo. Por que não São Paulo?

Acho o modelo da publicidade paulista meio "falido". Não que o nordestino seja menos falido. É que a energia dispensada pra trabalhar e viver em São Paulo é a mesma, ou até maior que a energia que precisamos para morar em um mercado realmente desenvolvido. Se é pra viver no Brasil, prefiro um mercado periférico. Não abro mão da minha qualidade de vida. Para mim, São Paulo é o símbolo da publicidade feita pra pasta, é a Meca de quem aceita trabalhar de graça. Não gosto. Existem centenas de profissionais talentosíssimos, subaproveitados num modelo que prega a criação pela criação, coisa que eu acho pobre, sendo a comunicação uma coisa tão rica. As mudanças que acontecerão no mercado paulista serão lideradas pelas mesmas cabeças viciadas no modelo paulista, que mandam hoje no mercado. No dia que eu pisar em São Paulo, provavelmente será atrás de clientes, não de emprego.

E a África, o que vai deixar saudade daquela terra?

Quando pus os pés na África minha sensação de estranhamento foi total. Moçambique era totalmente diferente do que eu imaginava. Nossa experiência africana foi linda, difícil, reveladora, intensa. Saí dali estranhando o resto do mundo. Eu sinto saudades de estar em suspensão, numa vida que irá mudar com a decisão do retorno. Essa sensação de urgência, de aproveitar as coisas hoje porque amanhã a vida pode ser outra deve me acompanhar daqui pra frente. A saudade é grande. Só quem esteve ali sabe o que é sentir saudades de África.

E do Brasil, o que você espera do Brasil?

Quase nada. Eu tento fazer o meu e andar com outros que fazem o mesmo. Minha expectativa é meu esforço.

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16

Comentários

  1. Autor:
    lenilson lima
    Data:
    14/ago/12
    Hora:
    14:26

    Mandou bem.

  2. Autor:
    Emanoel Melo
    Cidade:
    Maceió
    Data:
    14/ago/12
    Hora:
    15:52

    Cara, onde assino? Parabéns e sucesso!

  3. Autor:
    Aldo Fernandes Azevedo
    Cidade:
    Recife
    Estado:
    PE
    Data:
    14/ago/12
    Hora:
    16:31

    "Ah, e a peneira do cliente não pode ser desculpa pra trabalho irrelevante. As melhores músicas de Chico (Buarque) foram feitas na época da censura." Gostei!

  4. Autor:
    João Noberto
    Cidade:
    São Paulo
    Estado:
    SP
    Data:
    14/ago/12
    Hora:
    17:26

    clap clap clap!

  5. Autor:
    Christiano
    Cidade:
    Maputo
    Estado:
    Maputo
    Data:
    14/ago/12
    Hora:
    18:17

    Tenho uma grande admiração e respeito pelo Caniço.
    A única coisa que ele precisa melhorar é na sinuca, hehe.

  6. Autor:
    Rama
    Cidade:
    Maceió
    Estado:
    AL
    Data:
    14/ago/12
    Hora:
    19:09

    Gostei muito Caniço. Show de bola.

  7. Autor:
    Guilherme Carvalho
    Cidade:
    Recife
    Estado:
    PE
    Data:
    14/ago/12
    Hora:
    23:07

    Excelente texto, principalmente pela ousadia em querer fazer, colocar em prática. Infelizmente muitos usam o discurso mas raros são os que colocam em prática. Parabéns e sucesso.

  8. Autor:
    norton ferreira
    Cidade:
    natal
    Estado:
    rn
    Data:
    15/ago/12
    Hora:
    10:36

    Bacana.É por aí.Sucesso.

    Norton Ferreira
    nortonredator.blogspot.com
    casadalsetras@gmail.com

  9. Autor:
    Zeca
    Data:
    15/ago/12
    Hora:
    13:14

    Vc é um cara foda, man. Foda e corajoso. Grande abraço. Zeca.

  10. Autor:
    Gilberto Vidal
    Data:
    16/ago/12
    Hora:
    8:29

    Cara virei teu fã ! Suas considerações foram brilhantes. Espero em breve poder ver teus trabalhos aqui no Nordeste.

    Sucesso!

  11. Autor:
    Breno
    Cidade:
    João Pessoa
    Estado:
    Paraíba
    Data:
    16/ago/12
    Hora:
    14:16

    Lima é massa. Boa sorte.

  12. Autor:
    Henrique Lamenha
    Data:
    16/ago/12
    Hora:
    15:12

    cabra bom, esse aí :)
    boa sorte, meu velho.

  13. Autor:
    Giuseppe Lira
    Cidade:
    Fortaleza
    Estado:
    Ceará
    Data:
    20/ago/12
    Hora:
    10:08

    Gostei muito Lima. Sucesso pra você!

  14. Autor:
    Eduardo Nunes
    Cidade:
    London
    Data:
    26/ago/12
    Hora:
    20:35

    Keep rocking!

  15. Autor:
    Igor Fagundes
    Cidade:
    Recife
    Estado:
    Pernambuco
    Data:
    24/set/12
    Hora:
    22:01

    Show de bola Caniço! Sua clarividência do mercado está em extinção. Parabéns e sucesso.

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