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05/mar/13 por Bob Ferraz

Um ano de Africa

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Há um ano eu mandei uma mensagem para Pedrinho Fonseca, que na época trabalhava na Africa/Rio: "E aí Pedrinho, beleza? Me diz uma coisa: como é o mercado aí no Rio? Tô pensando em sair de Recife pra fazer alguma coisa diferente." Pedrinho me respondeu com sinceridade: "Não tô muito por dentro do mercado publicitário no Rio, flor, mas talvez tenha alguma coisa aqui pra você na Africa/Rio."

A conversa foi simples, por facebook mesmo e depois virou um email onde Pedrinho me explicava a necessidade de existir um criativo multifuncional na Africa/Rio. Alguém que escrevesse bem, que fosse diretor de arte, que entendesse de moda para atender os clientes desse segmento, que gostasse de fotografia, que soubesse fazer um cenário ou dar pitaco num figurino. Alguém que pudesse fazer tudo isso dentro de uma plataforma de comunicação fora do comum nas agências de propaganda: o merchandising.

Vim pro Rio arriscar uma entrevista com o então presidente da Africa/Rio, PC Bernandes. Mostrei o que eu sabia fazer. Num pdf de umas 90 páginas tinha de tudo: ilustração, direção de arte, textos, fotografias, meu blog de moda e quiçá meus anos de ginasta olímpica. Uma pequena biografia e pronto. PC gostou e em 20 dias eu me demitia da Plano B, em Recife, e estava de mudança para o Rio. Nessa época Agnes, aqui do GogoJob, me pediu para escrever um texto sobre minha experiência na Africa, mas eu ainda não era capaz de descrever o que estava vivendo. Acho que agora chegou o momento.

Hoje faz um ano que eu entrei na Africa/Rio e hoje mesmo estou saindo dela. Meu primeiro job na agência foi criar um roteiro para Zaxy (um dos produtos da Grendene). Nunca tinha escrito um roteiro na minha vida. Saber escrever é tão diferente de saber roteirizar. Peguei vários roteiros de Pedrinho e comecei a estudar aquela nova estrutura narrativa, até compreender o que deveria ou não ter um roteiro de merchandising para o Faustão. Foi um parto. Demorei horas para desenvolver uma ideia. Sempre fui muito visual e qualquer campanha que eu criava, sempre começava pelos layouts, em vez de pensar nos filmes. Agora era o contrário. Aliás, a minha vida inteira estava ao contrário.

O roteiro saiu. E depois dele saíram outros e outros roteiros. Saíram projetos de ação inteiros, para merchandising, para internet. Saíram layouts de produtos, layouts de vinhetas, cenários para ações na Globo, apresentações para clientes, inserções de merchan em novelas. Neste um ano de Africa/Rio saíram várias viagens, reuniões com pessoas que eu nunca achei que ia conhecer, saíram filmes que eu acompanhei a produção, a escolha dos figurinos, o trabalho dos diretores, a atuação de celebridades dessas que a gente só vê em novela. Correria, alteração de roteiro na hora da gravação, mudanças no clima, etc. Saíram projetos que foram um sucesso, outros que nem descolaram do papel, mas o que mais aconteceu neste um ano de Africa, foi a sensação de desconforto própria de quem está, todos os dias, aprendendo alguma coisa. Na raça, na pressão, sem professor para explicar, mas com um monte de exemplos fodas. É que aprender é um desconforto. É mexer nas suas estruturas e obrigar o seu cérebro a abrir espaço para coisas novas.

Neste um ano de Africa eu saí pelas ruas, fotografando Ipanema, buscando a vida do bairro que inspira o produto de um dos nossos clientes. Aprendi a escrever para um público adolescente, para mulheres mais velhas, para meninas ligadas ao mundo da moda. Escrevi as falas do Faustão, observei o que leva as mulheres a desejar certo tipo de calçados. Aprendi a antecipar certas tendências de comportamento. Acompanhei a vida dos famosos e o que eles inspiram nas pessoas. Observei, busquei referências diversas, devorei planejamentos, criei sinopses até a exaustão, repeti mais de 200 vezes a mesma mensagem, sempre de forma diferente. Aprendi a ter que provar, todos os dias, que eu estava apta a permanecer naquela cadeira, ainda que o meu escopo de trabalho fosse muito aquém da minha real capacidade de produção. Foi um ano louco.

Mas aí você sai de um emprego desses e pensa: e agora? o que eu vou colocar no meu portfolio? que tive experiências incríveis e inexplicáveis? que eu tenho um monte de histórias para contar? que conheci pessoas fantásticas e observei o trabalho de gente super competente? o que eu sou agora? Uma diretora de arte? Redatora? Planejadora? Criativa? Criativa de quê? Multifuncional? Isso. Multifuncional. E o ônus do profissional multifuncional é a sensação de não se encaixar em nenhuma função com plenitude. Não me tornei uma especialista em nada. Ser uma coisa só é pouco. Ser um monte de coisas é confuso e caro para quem contrata. Mas e quem gosta de tudo? Faz o quê? Vira o quê?

Eu ainda não sei a resposta, nem o rumo. Só sei que em um ano de Africa/Rio, com todos os perrengues que qualquer agência tem, eu adquiri ferramentas para realizar muitos projetos. E a capacidade de ver e resolver várias coisas é incrível, é impagável. Essas ferramentas eu espero nunca ver enferrujar.

Carol Burgo é diretora de arte, ilustradora e blogger de moda.

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Comentários

  1. Autor:
    Paulo Miguel
    Cidade:
    Natal
    Estado:
    RN
    Data:
    05/mar/13
    Hora:
    14:51

    Gostei do texto e acho que tenho uma resposta para você. Você é simplesmente uma Publicitária. Pois publicitário não é aquele que entende de Dir. de Arte, não é aquele que entende de Redação, ou o que entende de Planejamento, mas sim, aquele que entende que todas essas competências juntas o torna um profissional de verdade.

  2. Autor:
    Hayane Souza
    Estado:
    Rondônia
    Data:
    05/mar/13
    Hora:
    15:03

    Genial a forma como descreveu a experiência. E ser um profissional excêntrico é exatamente isso: abraçar diversas áreas para formar seu diferencial. Parabéns!

  3. Autor:
    Fernando Raposo
    Cidade:
    Recife
    Estado:
    PE
    Data:
    06/mar/13
    Hora:
    9:54

    Perfeito! Muito bom o seu texto! Reflete muito bem o turbilhão que foi a sua vida nestes 365 dias de África! Por sí só, morar no Rio já torna a vida da gente frenética, ainda mais em Ipanema, um bairro que não para, que não dorme, que está sempre em atividade! Você é multifuncional e nos dias de hoje isso conta muito! Saber tudo e não saber nada é o grande paradoxo da vida moderna. Eu vivo isso sempre! =)
    Parabéns pelo sucesso!

    Abs,

    Fernando Raposo

  4. Autor:
    Juliana
    Estado:
    CE
    Data:
    06/mar/13
    Hora:
    10:09

    E por que saiu da África Carol?
    PS: fã do seu blog, dos seus textos e, principalmente, das suas ilustras. =)

  5. Autor:
    Ana Carolina Lucena
    Cidade:
    Recife
    Estado:
    PE
    Data:
    12/mar/13
    Hora:
    17:31

    Que colocações fantásticas! Parabéns pelo sucesso, Carol!

  6. Autor:
    Priscilla
    Data:
    25/mar/13
    Hora:
    12:13

    Texto excelente!

  7. Autor:
    Germana Samara
    Cidade:
    João Pessoa
    Estado:
    PB
    Data:
    07/abr/13
    Hora:
    23:26

    Texto mega honesto e real. Um bom publicitário não é publicitário. Esse termo ficou pequeno para a evolução da comunicação que vivemos hoje. E com isso vem o peso de perceber que é difícil escolher um cargo, uma área, pensar apenas por um lado. Ser multifuncional não quer dizer que você é "Bombril", mas revela que atingiu a maturidade na profissão e que entende de comunicação.

  8. Autor:
    LucianoHonorato
    Cidade:
    João Pessoa
    Estado:
    Paraíba
    Data:
    08/abr/13
    Hora:
    0:22

    Parabéns, comunicóloga!

  9. Autor:
    Mariana Buss
    Cidade:
    Rio de Janeiro
    Estado:
    RJ
    Data:
    08/abr/13
    Hora:
    15:15

    Me identifiquei muito e mais uma vez ne vim aqui soltar a língua... trabalhei anos com moda e sei muito bem essa sensação. Pois na Moda vc é multifuncional e apesar de aprender muito de tudo fica um buraco qd vc vai focar num trabalho específico em outra área. É algo que só quem passou por isso sabe. Como disse no Blog pode contar comigo, suas palavras são emoções pura. Beijo e mt sucesso há por vir!

  10. Autor:
    Marília Sá
    Cidade:
    Recife
    Estado:
    PE
    Data:
    14/abr/13
    Hora:
    19:54

    Me identifiquei com o texto da Carol, e acho q as agências deveriam ter mais espaço para esse tipo de profissional. Pq na prática, na hora de pedir/analisar o currículo, td continua bem (limitado).

  11. Autor:
    carol silva
    Cidade:
    rio de janeiro
    Estado:
    rj
    Data:
    23/abr/13
    Hora:
    12:40

    "Ser uma coisa só é pouco. Ser um monte de coisas é confuso e caro para quem contrata."
    Essa frase diz tudo sobre o mercado de trabalho hj em dia.
    Parabéns pelo texto Carol, boa sorte e muito sucesso para vc!

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