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10/abr/13 por Marina Magalhães

Uma brasileira que divulga a arte e a cultura brasileira feita em Londres

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O que você faria se vivesse em Londres, perdesse o emprego, a casa em que morava e tivesse apenas 500 libras no bolso? A mineira Shirley Nunes, de 28 anos, fez da crise coração, tirou proveito da sua versatilidade como professora, cantora e colunista e criou um projeto inovador sobre a cultura e arte brasileira na capital britânica. Lançado há apenas seis meses, o Culturart.co.uk (Brazilian Art Culture & Events) hoje conta com website, um guia mensal de eventos, 22 parcerias com empresas e órgãos públicos e uma equipe internacional de dez colaboradores, em diversas áreas artísticas.

GogoJob: Uma brasileira, dentre os quase 200 mil, morando em Londres… Como você descobriu esse nicho de mercado e se tornou uma ativista cultural da arte brasileira naquela cidade?

Shirley Nunes: Isso veio junto com a minha experiência de cantora, colunista e professora. Eu moro em Londres há três anos e desde que cheguei aqui atuei como voluntária, dando aula de português para crianças. A princípio eu não sabia nada sobre essa área e, após um ano, já sabia que existiam seis escolas bilingues. Então, com o contato com a comunidade, percebi que havia crianças que estudavam português e inglês e não tinham ajuda da Embaixada, do Consulado e muito menos dinheiro para fazer arte, promovê-la e fazer um website. Como cantora, também enfrentei uma dificuldade enorme para divulgar meus shows: ou era pelo Facebook ou por email, pois para estar numa revista ou no jornal, teria que pagar. Já como colunista, por dois anos escrevi sobre linguagens e eventos [nos jornais Brazilian News e Brazilian Post] e até cheguei a trabalhar no departamento comercial, conseguindo bons contratos. Com essa bagagem em áreas distintas, fiquei matutando: “já que sei de tantas coisas que acontecem aqui, já escrevo, artistas não tem espaço, porque não fazer um espaço para juntar tudo isso?”

GogoJob: Como funcionava a coluna de linguagem?

Shirley Nunes: A coluna, na verdade, era sobre língua e cultura. Nos posts, eu dava dicas de inglês, contava micos e expressões, não eram só questões gramaticais. Era muito legal, recebia vários email das pessoas, até mesmo de angolanos dizendo “estou aprendendo inglês com você”.

GogoJob: A partir dessas colunas, como o Culturart foi estruturado?

Shirley Nunes: Inicialmente, eu tinha um blog com mais ou menos umas cem postagens, que eram justamente as colunas que eu fazia para os jornais, e comecei a arquivá-las em meados de fevereiro de 2011. Depois dos textos sobre linguagem, tive a oportunidade de escrever sobre arte e eventos, assinando a “What’s on”. As colunas eram informativas e tinham a ver com o site que eu queria criar, que dava para dar dicas do que ver por aqui, daí eu puxei para o lado do Brasil e comecei a escrever sobre fotógrafos brasileiros e sobre artes plásticas, a mostrar que as artes brasileiras aqui em Londres vão bem além da música… Então, no meio do conflito no meu último trabalho, pensei que o blog poderia ser transformado em website, pedi para o designer criar uma logo e resolvi lançar o negócio. Tudo se transformou em cerca de um mês: em setembro do ano passado fui demitida, comecei a estruturar as minhas experiências no papel para saber o que poderia fazer com elas e, em um mês, o Culturart estava no ar e o guia cultural estava nas ruas.

GogoJob: Como esse momento de crise profissional lhe motivou a criar o seu próprio projeto?

Shirley Nunes: Sobrevivência. Tinha muitas ideias, não tinha grana nenhuma, mudei de casa sete vezes, foi uma fase bem difícil. Quando eu perdi o emprego, perdi o quarto que eu morava, porque o meu acordo com o jornal era o salário mais o quarto. Tentei vender o projeto para outras revistas, como estava funcionando bem como colunista, tentei propor algumas parcerias, mas ouvi muitas respostas negativas, de que a ideia não daria certo. Realmente foi um momento de para e pensar: “eu tenho 500 libras, o que eu faço, para onde eu vou?”.

GogoJob: Se o Culturart trata de cultura brasileira, por que montar uma equipe internacional?

Shirley Nunes: Na verdade, duas inglesas atuam como colaboradoras. A gente quer mostrar a comunidade brasileira para os estrangeiros também e para isso temos que falar a língua deles, as expressões mais comuns, sem qualquer tipo de erro. Hoje podemos dizer que o site é escrito 50% em português e 50% em inglês. Não conseguimos traduzir todos os textos ainda porque temos apenas duas tradutoras e o volume de informações é enorme, mas já estamos tratando disso.

GogoJob: Como o projeto tem sido recebido pelos brasileiros e estrangeiros?

SN: Geralmente, os brasileiros olham para o projeto e perguntam “caramba, como você consegue isso, quantas pessoas trabalham com você?”, e pensam que é uma equipe enorme que trabalha no Culturart. A recepção ainda é bem diferente pelos dois públicos, os brasileiros recebem bem, elogiam, às vezes guardam para ler depois. Eu gosto de ir aos restaurantes e fazer uma experiência: deixar os guias num cantinho e observar o comportamento dos leitores. O inglês, geralmente, pega o guia na mão, lê todo de uma vez e fica impressionado. Quando me conhecem, perguntam mil coisas sobre os eventos, como consegui as informações... eles tem noção da dificuldade de fazer um trabalho desses. O guia todo é inglês porque a gente quer que atinga esse público. Tem muita gente apaixonada pela cultura brasileira e cada vez mais eles estão aprendendo português, querendo descobrir restaurantes brasileiros e a nossa arte. O inglês acha que só tem um restaurante brasileiro em Londres, que é aquele que o amigo apresentou, e no nosso guia acaba descobrindo que tem 15 ou mais espalhados por aí, por exemplo.

GogoJob: Quais são os próximos passos do Culturart? Existe a ideia de reproduzir o projeto em outras cidades?

Shirley Nunes: A princípio, o objetivo é expandir em Londres e no Reino Unido. Quando estiver bem estruturado, preciso ver a possibilidade de fazer o Culturart na França, Espanha, Portugal e Itália, porque temos muitos brasileiros vivendo também nesses países e eles sentem falta do envolvimento com a nossa cultura. É um sonho grande, mas é possível. Também pensamos em implantar, em Londres, cursos livres como dança, aulas de jiu-jitsu, através da parceria com as escolas bilingues, pois temos profissionais aqui para isso e a iniciativa geraria muitos empregos. Se eu pudesse criar um projeto no Brasil também seria maravilhoso. A ideia é fortalecer a mídia online, dar continuidade ao guia que promove eventos e, daqui a cinco anos, pensar na criação desse centro no Brasil. Já é um objetivo de vida, o Culturart virou minha vida.

GogoJob: Você é jovem, formada, dinâmica e cheia de projetos. Por que abriu mão da boa onda de expansão da economia brasileira para viver em um momento de crise na Europa?

Shirley Nunes: Essas dificuldades e a vinda para cá me fizeram criar o meu projeto. Talvez lá no Brasil, um dia eu criaria um centro cultural sim, mas seria alguma coisa para o futuro, para ajudar crianças, provavelmente depois dos 40 anos... Porém, justamente por conta dos desafios enfrentados em Londres, fui empurrada a fazer “aqui e agora”. A minha ideia, como professora e cantora, era vir a Inglaterra para dar aulas e com o dinheiro das aulas investir na minha música. Porém, de repente, percebi que o meu compromisso era muito maior, muito além de cantar. Existe o artista clássico, com formação; tem o artista que tem a paixão, mas não tem a técnica; e tem aquele que traz o estudo, junto com a paixão e o compromisso de integrar as coisas. Para mim é muito pouco só ser cantora, quero crescer e ajudar cada vez mais pessoas.

(Entrevista feita por Marina Magalhães, correspondente internacional do GogoJob).

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