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18/abr/13 por Marina Magalhães

GogoJob entrevista o artista Heberth Sobral

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Da inspiração do pai pintor a criação de telas sobre o cotidiano. De um projeto social a um trabalho como assistente do consagrado Vik Muniz. De uma brincadeira em mesa de bar a um convite para a agência África. De um contato rápido com o mercado de móveis a criação de uma cadeira, com as formas do Pão de Açúcar, que roubou a cena no São Paulo Fashion Week. De uma exposição fotográfica com Playmobil a convites para mostra na Alemanha… A vida de Heberth Sobral, de 28 anos, apontado como um dos nomes mais promissores da arte brasileira contemporânea, vem sendo uma sucessão de acasos interligados pela ousadia e por um talento versátil. Foi por acaso também que, em meio a varais, gatos e velhinhos das vielas da antiga Alfama, em Lisboa, o carioca bateu um papo com o GogoJob sobre a sua trajetória na arte, na publicidade, na vida e nos recantos lisboetas, onde abre nesta quinta-feira (18/04) a exposição “Quotidiano”, na Galeria Poeira.

(Heberth e sua exposição "Cotidiano", que mostra cenas cotidianas feitas com brinquedos)

GogoJob: Como começou a sua trajetória na arte?

Heberth Sobral: Vendo o meu pai pintar, sentindo aquele cheirinho de óleo, ainda moleque, comecei a desenhar também. Era por fases: primeiro desenhava só carro, carro, carro… Depois, só casas. Quando eu tinha 23 anos pintei duas telas, em preto e branco, sobre o cotidiano. Daí vem a minha fascinação pelo cotidiano. Eu percebi que os pintores antigos, hoje chamados românticos, como Monet, que pintava aquelas senhoras nas gramas e nos cafés, com aqueles chapéus, aquilo nada mais era que o cotidiano deles. Era como você ir ao boteco ou ao bar hoje em dia. Então eu pintei representando o cotidiano das cidades grandes, onde você está junto com um montão de pessoas, mas você está sozinho, a ideia do contido e do não contido…

GogoJob: De onde surgiu a oportunidade de trabalhar com o consagrado Vik Muniz?

Heberth Sobral: Foi uma sorte danada, um acaso. Eu estava participando de um projeto social e o Vik Muniz, que morava no exterior, estava vindo ao Brasil e fez uma parceria com aquele projeto, para a série sobre sucata. Ele estava recrutando pessoas para fazer um curso com ele, de apenas três meses de duração, uma espécie de rodízio da turma do projeto. O meu colega, que estava para sair, sabia que ele precisava de alguém que tivesse uma ideia de luz, de sombra, e acabou me indicando. Eu nem sabia que o Vik estava lá, fiz o teste, passei e comecei. Muita gente estava lá por estar, via aquilo como apenas um trabalho temporário, mas eu pensei que não poderia perder essa chance, se queria ser artista. Então, ao fim dos três meses, comecei a trabalhar escondido. Saí do projeto, mas chegava umas três horas antes do trabalho começar, entrava disfarçadamente pelo portão, seguia escondido pela linha do trem e ficava lá esperando… Até que um dia o Vik saiu do projeto e comecei a trabalhar com ele fora dali, junto com os outros assistentes, continuando a série sobre sucata. Nesse meio tempo, veio o filme, Lixo Exraordinário (2010) e alguns trabalhos paralelos.

(Heberth ao lado de uma das peças da exposição “Violência não é brincadeira”)

GogoJob: Por falar em trabalhos paralelos, em menos de um ano você já estava expondo sozinho. Como isso aconteceu?

Heberth Sobral: Calhou de ter muita visita no galpão onde trabalhávamos com a sucata. E lá foi um jovem chamado Jaime Portas Vilaseca, que quis saber mais sobre o meu trabalho. Meio tímido, na época eu só tinha aquelas duas telas sobre as quais falei, mas estava começando o projeto com o Playmobil. Mostrei alguns rascunhos no computador, nada finalizado, e ele falou: “olha, dá para a gente trabalhar com esse Playmobil, mas tem que ter roteiro, texto, técnicas de fotografia”. Então a gente começou a tirar fotos para a primeira mostra da série, que se chamava “Violência não é brincadeira”, inspirada na realidade do Rio de Janeiro, onde as pessoas riem da própria desgraça, veem uma equipe de televisão na rua, falando de esgoto a céu aberto, e fazem gracinha para as câmeras. Peguei essa linha e resolvi fazer uma série sobre coisas trágicas do cotidiano, abordando temas como enchentes, altos impostos, áreas de riscos, dentre mais de 20 temas críticos para a sociedade.

GogoJob: Então o seu interesse pela comunidade partiu da forma como a mídia retratava a realidade e de como as pessoas se manifestavam a respeito disso?

Heberth Sobral: Partiu da mídia e do que eu vivia. Tem um trabalho que é “guarda municipal agride camelô”. Porque lá no Rio, se você tem um camelô na calçada, eles acham que você está atrapalhando o trânsito da calçada, assim eles chegam e batem no camelô. Só que o camelô volta, né? Eu falo que ele, o camelô, vota no cara [o político], e o cara manda o guarda bater nele. E o meu pai era camelô, então já vi meu pai chegar em casa todo arrebentado e sem mercadoria. Eram coisas que eu vivia e coisas que eu via na mídia. Então eu pensei: “qual é o meu jeito de protestar, o meu jeito de falar”? É pela arte. Daí eu tive essa minha primeira mostra individual, “Violência não é brincadeira”.

(Mais uma peça da série "Cotidiano")

GogoJob: De um projeto social para o mundo da fotografia, depois para o universo das galerias… até chegar ao mercado publicitário. Como surgiu essa oportunidade?

Heberth Sobral: Mais uma vez foi o acaso. Em um almoço com o Vik, eu estava comentando uma propaganda de uma marca de rádio que se utilizava de várias personalidades, contando histórias de como conseguiram executar seus projetos, para vender a ideia de “bem sucedido”. Mas com os caras que mais usam esse rádio a marca não vai poder fazer, que são os traficantes. Então eu refiz o comercial com o traficante, no estilo “cresci no morro tal, comecei como vapor, hoje sou gerente, dono de cinco bocas… Esse é o meu mundo. Esse é para você. É ilimitado”. Nisso, passa o Sérgio Gordilho, presidente da África, e escuta o Vik rindo pra caramba. Como eles são amigos, o Vik perguntou o que ele fazia ali no Rio e ele disse que estava procurando pessoas para trabalhar na agência. Então o Vik disse: “senta e escuta essa história”. No final, o Sérgio me perguntou: “você quer ir para a África?”.

(Blitz: outra peça da série "Cotidiano)

GogoJob: Como foi a experiência de trabalhar no mercado publicitário?

Heberth Sobral: Eles foram bem claros para mim, que eu tinha um bom trabalho, mas que não queriam me retirar das artes plásticas. Então a proposta era para eu ficar dois anos e aprender o que tinha para aprender, ampliar contatos, ver como faziam os anúncios… para depois seguir. Fiquei lá dois anos dando ideias, fazendo comerciais, criando layouts e desenvolvendo o meu trabalho de artes paralelamente. Foram dois anos sensacionais, depois voltei a trabalhar com o Vik como assistente de fotografia, desenho e arte em geral, o que faço até hoje.

(Uma das principais peças da série "Cotidiano")

GogoJob: Por que utilizar bonecos para retratar o cotidiano?

Heberth Sobral: O Playmobil foi pelo sorriso, você pode tacar o boneco no fogo, na água e ele está com aquele sorriso macabro, fatal… Quando a gente é criança e está brincando com qualquer tipo de brinquedo, a gente está colocando ali uma projeção de realidade. Então, se eu estou brincando de carrinho, é porque eu estou pensando que eu sou o motorista. Se é de casinha, é porque a pessoa está projetando uma dona de casa; com o bebê no colo, pensando ser uma mãe. Quando eu via comercial na tevê com aqueles bonequinhos havia um cenário, mas eu ficava louco e não sabia que aquilo era uma composição gráfica. Eu ia na loja, via só o bonequinho e perguntava “cadê aquele cenário, que tinha míssel?”. Aí eu começava a fazer isso de terra, com plantas pequenininhas, que para um boneco já eram árvores. Então usava tudo que eu uso hoje em dia para o meu trabalho, tudo o que está ali é de verdade, menos o boneco.

GogoJob: Nosso cotidiano é tão diversificado… Que elementos foram priorizados na hora de fazer esses recortes?

Heberth Sobral: Os mais simples possíveis. É um zoom. Sabe aquela câmera mega lenta, em que você vê uma bola estourando? É a coisa mais simples do mundo, mas quando você vê aquilo em câmera lenta é uma coisa fantástica. Então eu pensei em fazer isso de outra forma, dar um foco naquela coisa mais simples, a foto da moça fazendo compras, a poça d’água que tenho que pular… Então, o desafio foi deixar isso romântico. Essa exposição de Portugal traz a foto de uma boneca varrendo o quintal, coisa que todos fazemos. É para a dona de casa chegar, ver a Barbie, uma princesa do mundo da fantasia, e dizer: “sou eu”. A minha arte é o outro, é colocar o outro dentro do universo artístico.

(Cadeira inspirada no Pão de Açúcar)

GogoJob: Um dos seus trabalhos de destaque foi o design de uma cadeira com as formas do Pão de Açúcar. De que maneira as paisagens inspiram o seu processo criativo?

Heberth Sobral: Mais um acaso. Eu estava em São Paulo, na agência África, e conheci um rapaz que estava abrindo uma sociedade com a Alex Cerello, loja que faz móveis com Junco Malaca. Eu sempre gostei de casa, de design de interiores, mas era apenas um hobby, mesmo sabendo que, como eu desenho, acho que quem desenha, desenha um carro, uma cadeira, um avião, você desenha qualquer coisa. Então, quando a gente estava conversando num bar, falei para ele que gostava de móveis e que tinha desenhando algumas coisas, mesmo não tendo nada pronto, e ele pediu para que eu mostrasse. Comprei várias revistas de moda casa e comecei a pensar em uma chaise, cadeira de piscina com a forma do Pão de Açúcar, que está dentro d’água. A ergonomia dela é perfeita, tem o morro maior, que são as costas, e o menor, que são as pernas. Fiz o desenho, eles abraçaram a ideia, fizeram a cadeira e dois meses depois ela estava nas revistas de moda e foi para o desfile São Paulo Fashion Week. Eu consegui botar o Rio no Fashion Week São Paulo (Risos!). Ou seja, o Rio realmente está na moda.

(Série de notas para lembrar grandes personagens do Brasil esquecidas pelo povo)

GogoJob: E a ideia de criar cédulas em homenagem a personalidades brasileiras?

Heberth Sobral: Eu olho o meu trabalho na perspectiva da falta de algo. Então se falta educação ou memória, essa é a minha pauta. E, como gosto muito de documentários, percebia que havia muitas pessoas importantes no Brasil, mas que as pessoas não lembravam…E veio a pergunta: “valeu a pena lutar, ser torturado por uma causa se o seu país não tem memória? Que valor isso tem?” Aí deu aquele estalo, vou fazer um link com dinheiro, que é a coisa mais valiosa, depois da vida. Baseado nas cédulas do cruzeiro, eu fiz essa homenagem do Banco de Memória do Brasil, que era desenhar a pessoa na frente das notas e atrás uma descrição dela. Às vezes, o valor é uma brincadeira com nome e outras com a época, como a do Vladimir Herzog, 1+5, em referência ao Ato Constitucional Nº5. A do Milton Santos é 100 Milton Santos. É uma obra aberta, eu vou sempre criando.

GogoJob: O que você considera ter sido fundamental para alcançar o sucesso?

Heberth Sobral: Determinante foi a oportunidade, de pessoas que simplesmente acreditarem em você. Todas as vezes que eles me deram oportunidade, eu estava muito no começo. Nunca tinha feito um móvel, me deram um móvel para fazer. Tinha apenas dois quadros quando me convidaram para expor em uma galeria. Nunca tinha feito publicidade e Nizan Guanaes me deu uma oportunidade… Se não derem a oportunidade, a pessoa não sabe que pode fazer. Tudo o que fiz eu admirava, nunca fiz publicidade, mas ficava julgando comerciais na tevê com a minha mãe e aceitei o desafio na hora. Quando a oportunidade vier você tem que saber aproveitar, estar preparado ou ir se preparando. Às vezes você tem uma chance só.

(Entrevista feita por Marina Magalhães, correspondente internacional do GogoJob).

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Nota do editor: tive o privilégio de acompanhar a entrevista de perto. O mais engraçado é que a entrevista condiz exatamente com a exposição que o Heberth veio fazer em Lisboa, intitulada "Cotidiano". Marina fez a entrevista embaixo de um pé de tangerina, em meio à varias de roupas, conversa entre vizinhos através de janelas e um sol dourado, que varria o chão enquanto uma moradora varria a frente da sua casa. E sim, ou melhor, claro: terminamos a entrevista comendo tangerina.

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Comentários

  1. Autor:
    Lima
    Cidade:
    João Pessoa
    Estado:
    Paraíba
    Data:
    20/abr/13
    Hora:
    7:21

    Tudo muito bom. A melhor entrevista daqui. Estranha a ausência dos comentários.

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