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30/jul/13 por Bob Ferraz

Recife-Barcelona-Recife

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Foram exatos 5 anos, 1 mês e 12 dias fora. Saí de Recife no dia 7 de outubro de 2007 com destino a Barcelona e voltei no dia 19 de novembro de 2012. Fomos eu e minha esposa, carregando 4 maletas e duas mochilas. Nesse período, moramos em 5 casas diferentes. Algumas por mais tempo, outras por menos. Fiz incontáveis viagens. Visitei 18 países. Gastei 12 pares de tênis em muitas andanças. Conheci gente de umas 45 nacionalidades e passei pelo menos 700 horas no Skype conversando com a família no Brasil.

Perdi uns 18 quilos. Na rotina de casa pro trabalho, normalmente andava de bicicleta duas vezes ao dia. Uma distância de cerca de 6 quilômetros por trajeto, o que totalizaram mais ou menos uns 9600 quilômetros durante esse tempo. Pagava cerca de 40 euros por ano para ter acesso ilimitado ao sistema de bicicletas públicas da cidade. O que, a dia de hoje, dá mais ou menos 110 reais. Barcelona tem mais de 200 quilômetros de ciclovia, numa área de 100 quilômetros quadrados. Uma superfície aproximada de 10 x 10 quilômetros.

Hoje em dia, a cidade tem uma população de 1.621.537 pessoas (segundo a Wikipedia), das quais cerca de 280.000 são estrangeiros. Os dados do consulado brasileiro da cidade contabilizavam algo em torno de 10.000 brasileiros residindo na capital catalã. Desde que a grande crise econômica na Espanha começou, por volta de 2008, esse número vem caindo. No ano passado, a população brasileira aparece em 7º lugar no ranking das nacionalidades que mais deixaram a cidade. Segundo dados oficiais da Prefeitura, exatamente 531 brasileiros fizeram as malas e foram tentar a sorte em outra parte do mundo.

E lá, dentre esses 531, estávamos minha esposa e eu, finalmente voltando pro lugar que havíamos desaprendido a chamar de casa. Aterrisamos no aeroporto de Recife 23 horas após a partida, com 2 trocas de avião no meio. Trouxemos, dessa vez, 3 maletas e uma mochila, apenas. Já tínhamos mandado mais de 150 quilos das nossas coisas através de vários amigos que nos visitaram ao longo de 1 ano de preparação para a volta. Deixamos mais ou menos uns 40 quilos de pertences nossos pra trás. Cedo ou tarde, voltaremos para buscá-los.

Percorremos os cerca de 14 quilômetros que separam o aeroporto de Recife da casa dos meus pais - nossa residência provisória - de carro, meio de transporte que tínhamos desaprendido a usar no dia-a-dia. E a partir daí, começamos o processo de readaptação.

Durante o tempo fora, tinha um estilo de vida bastante diferente. A começar pelas horas de trabalho. O horário das agências lá é das 9:00 às 14:00 e das 16:00 às 19:00, de segunda a quinta. Nas sextas-feiras, o horário é, como eles dizem, "intensivo". Das 8:00 àh 15:00. A partir daí, é trocar os tênis por chinelos e ir curtir o fim de semana. Isso é cultural. Lá, trabalha-se para viver e não se vive para trabalhar. Valoriza-se, e muito, o tempo fora da agência, tomar uma cerveja no fim da tarde com os amigos, passear pelos calçadões, viajar num fim de semana prolongado e, porque não, aproveitar o tempo livre exercitando a criatividade nos mais diversos projetos. A cidade respira cultura. São 51 museus, incontáveis teatros, galerias de arte, casas de show, parques, jardins, etc. Com uma programação que não para nem um só dia do ano.

Em Barcelona, praticamente deixei de ser publicitário para me tornar Designer. Profissão que, aliás, é uma das mais praticadas na cidade. Nunca vi uma terra pra ter tanto. O lado bom disso é que a cultura visual das pessoas é muito desenvolvida, o que facilita o trabalho na hora de aprovar layouts mais diferentes.

De uma maneira geral, a publicidade na Espanha é mais fraca que a brasileira. Por outro lado, o fato de estar numa cidade como Barcelona, aproxima você de profissionais de grande calibre em todas as áreas. Produtoras de vídeo, de áudio, modeladores de 3D, ilustradores, tipógrafos, fotógrafos, retocadores de imagem, etc.

Voltando ao mercado de Recife, essa talvez seja uma das diferenças mais significativas. Temos, sim, por essas bandas, grandes talentos, porém bastante mais escassos. E escasso por aqui, também parece ser o tempo para elaboração das campanhas. O ritmo de trabalho é muito mais acelerado para malgrado dos profissionais de criação. Pouca pesquisa, pouca informação de mercado e poucos olhos para o consumidor, de uma maneira em geral. Classificações como "classe A, B ou C" são coisas de outrora em sociedades mais desenvolvidas e igualitárias. Lá, a classificação das pessoas se faz por gostos e valores. Profissões como as de coolhunter e trendhunter tornaram-se fundamentais já há algum tempo.

Mas a principal diferença entre os mercados de Recife e o de Barcelona está no fato de que, aqui, as agências sobrevivem graças às gordas comissões de mídia que recebem. Isso faz com que um bocado de gente se estapeie pela conta da "Concessionária do Seu Jairo", que faz anúncios de meia-página 3 vezes por semana no jornal local, embora o “Seu Jairo” seja um bronco e pouco se importe com a qualidade da criação publicitária que lhe é oferecida.

Obviamente o lado positivo é que as agências aqui tem suas contas muito mais saneadas e se tenha mais tranquilidade financeira no ambiente de trabalho. Enquanto que, em Barcelona, com o agravamento da crise econômica, vi departamentos de criação inteiros serem demitidos, agências que passaram a contar em seu quadro com uma ampla maioria de estagiários e muita gente que arrancava os cabelos por ter seu salário reduzido duas vezes no ano.

Por aqueles lados, além do mais, os meios offline minguam e os olhos se voltam para comunicações mais direcionadas. Busca-se mais acertar o alvo sem necessariamente atingir uma massa enorme que não interessa. Já que lá a inclusão digital é muito maior que no Brasil, a internet é tida como um dos meios principais. Qualquer redator ou diretor de arte que forem tentar a vida lá e não tenham em suas pastas pelo menos 50% de trabalhos para meios digitais, melhor ir buscar a sorte em outras freguesias.

O desemprego que atinge a Espanha ronda os 25% da população economicamente ativa. Esse número sobe para quase 50% na população de até 30 anos. Ou seja, exatamente a faixa etária de uma grande parte dos profissionais de criação. É impossível falar de Barcelona e da Europa hoje, sem mencionar o quão devastadora tem sido a crise econômica nos últimos anos, mas também não quero me extender muito nesse tema.

O que vale ressaltar é que lá, dentro desse contexto, a criatividade é realmente um diferencial almejado e reverenciado. É comum você ver micro agências e estúdios de design fazendo excelentes trabalhos para clientes internacionais. Diferente daqui, onde as grandes marcas ainda costumam dividir suas contas entre 4 ou 5 agências.

Hoje, passados pouco mais de 8 meses do meu regresso, vivendo esse processo de readaptação a um mercado com tantas idiossincrasias como o nosso, o maior desafio é trazer as experiências vividas fora para cá. Depois de 5 anos fora, é chato ver que pouca coisa mudou na estrutura e rotina das agências daqui. É hora de quebrar velhos paradigmas. O momento é propício. Com a economia aquecida, há mais espaço para experimentar e provocar mais. Acho que ainda temos que nos abrir muito mais para o mundo e enxergar a comunicação e a criatividade de uma maneira mais global e buscar ser mais relevantes na vida das pessoas.

Diego Jucá é diretor de arte da agência Aporte Comunicação (Recife-PE)

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Comentários

  1. Autor:
    BRUNO
    Data:
    30/jul/13
    Hora:
    12:03

    e eu querendo me mudar pra barcelona pra investir na carreira de designer... bacana seu texto!!!

  2. Autor:
    Diego Jucá
    Data:
    30/jul/13
    Hora:
    23:07

    Cara, vale muito a pena. Principalmente se você for pra estudar e viver uma experiência numa cidade sensacional. Se você for com a ideia de conseguir trabalho e apostar tuas fichas numa vida profissional promissora, provavelmente você vai esbarrar em barreiras muito grandes. Se você trabalhar com webdesign, a coisa é menos difícil, mas ainda assim, a concorrência é enorme.

  3. Autor:
    mauricio
    Cidade:
    recife
    Estado:
    pernambuco
    Data:
    01/ago/13
    Hora:
    16:17

    Vá se acostumando, aqui continua a mesma merda: 90% ganham 3 mil reais e pouco (isso se for numa das grandes, e olhe lá), desenvolvem e finalizam campanhas em 01 semana - depois de mudar trocentas vezes, passam os dias fazendo anuncios de jornal que o cliente palpita no título e na arte, e nos fins de semana, tiram fotos lindas no instagram. Ah, e o esquema é o mesmo: anuncio jornal / revista / outdoor / vt cartelado / e uma ou outra coisa na web.
    Volta pra Europa!

  4. Autor:
    Dadá
    Cidade:
    recife
    Estado:
    Pe
    Data:
    04/ago/13
    Hora:
    15:37

    Dadá veja que interessante esse texto de Diego Jucá , publicitário e marido de Albinha , sobre sua experiencia e vivencia em Barcelona e sua readaptação à cidade do Recife.

  5. Autor:
    Thaís da Paixão
    Cidade:
    Lauro de Freitas
    Estado:
    Ba
    Data:
    28/ago/13
    Hora:
    11:15

    Muito bacana a narração de sua experiência Diego. Ampliou minha visão, compreensão sobre vários aspectos. Estive recentemente em Barcelona, de férias e até pensei em passar um tempo lá, estudando e trabalhando claro, preciso pagar minhas contas.
    Tenho amigos que são e moram lá e disseram me hospedaríam caso eu queira ir, passar um tempo.
    Moro em Lauro de Freitas, trabalho como produtora de eventos, mas sinto a necessidade de alçar novos voos, vivenciar novas experiências, novos olhares, aprendizados.
    Enquanto isso...amadurecendo e organizando as idéias.

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