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26/jun/14 por Agnes Pires

Como aprender a contar melhores histórias com o futebol

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Em tempos de Copa do Mundo, praticamente não se fala em outro assunto na terra do futebol. Os brasileiros se referem ao esporte bretão como paixão e religião, como se esse assunto estivesse acima de qualquer outro. Mas será que isso é verdade? Será que não existe nada capaz de mexer ainda mais com o coração verde-amarelo?

Os arquivos da Rede Globo afirmam que algo inesperado aconteceu em 1970, ano em que o Brasil de Pelé conquistou seu terceiro título mundial. Contrariando as expectativas, a audiência da final entre Brasil e Itália não foi a maior do ano. No dia seguinte, a novela Irmãos Coragem obteve uma contagem superior no Ibope. É verdade que o futebol que corre em nossas veias, da mesma forma que contar boas e longas histórias está no nosso DNA. Mas como a ideia aqui não é colocar um para jogar contra o outro, vamos fazer um paralelo para elucidar o storytelling através do futebol.

Para começar é preciso destacar a grande diferença: narrativas não são um esporte, são uma expressão artística. Então não existe uma forma única de se contar histórias. Ainda assim, há formas melhores. Da mesma forma que existe a Copa, existe o Oscar, a Palma e o Globo de Ouro e, acima de tudo, os medidores de audiência e bilheteria. Considerando que times vencem uns sobre os outros, o mesmo ocorre com as histórias: as melhores ganham atenção e são assimiladas como parte da cultura, recomendadas e repassadas através de gerações. Para fazer uma história vencedora, é preciso entender a dinâmica desse jogo chamado Storytelling.

No futebol existem as regras do jogo: a partida dura 45 minutos, a bola na rede pelo lado de fora não vale nada, só o goleiro pode colocar as mãos na bola e assim por diante. No storytelling, cada história tem suas próprias regras: se numa história de zumbis eles são rápidos e burros, em outra eles são lentos só que mais assustadores. O importante é ter uma dinâmica clara, que faça sentido lógico.

O futebol acontece dentro de campo. O storytelling acontece nos formatos narrativos: pode ser uma revista em quadrinhos, um filme de longa- metragem, um game, uma música, um livro de romance. Enfim, o importante é que o formato seja explorado da melhor maneira: o cinema privilegia a ação, já a literatura fortalece a vida interior e os pensamentos do protagonista.

No futebol é comum a figura da estrela do time, um craque que promete direcionar sua equipe. No storytelling existe o protagonista, um personagem muito especial, que vai conduzir a narrativa. Ele vai sofrer e ele vai se transformar e vai acabar sendo muito marcante. Na comunicação corporativa muitas vezes ao invés de fazer um personagem especial as empresas acabam dividindo uma celebridade com muitas outras. É como se o Neymar pudesse jogar pudesse jogar em todas as seleções.

Com ou sem craque, um time de futebol tem onze jogadores. No storytelling é possível existir centenas de personagens, mas doze são suficientes para compor uma dinâmica dramática satisfatória. O importante é que cada personagem esteja engajado na história e, para isso, ter um aprofundamento pelo autor. O erro mais comum de autores amadores é fazer personagens superficiais e previsíveis. Assim como o jogador de futebol tem uma vida fora de campo - ele dedica o gol ao filho que nasceu ou sofre uma crise de choro porque perdeu o pai - também os personagens precisam ter toda uma vida que não apareça na tela e só fique nas entrelinhas.

No futebol dois times disputam entre si: e quanto maior a tradição de jogos entre eles, mais promissora é a partida. No storytelling existe a questão do antagonismo, de forças que disputam um mesmo objetivo: o mocinho e o bandido que querem o coração da garota. Assim como um campeonato de futebol comporta muitos times, o storytelling também pode ter várias forças antagônicas. No Game of Thrones são sete reinos disputando o mesmo trono. Já na publicidade é como se todo comercial não passasse do treinamento. Não existe o adversário, a competição, apenas a marca chutando contra um gol vazio e depois comemorando sozinha.

No futebol é imprescindível a presença do técnico, que apesar de não entrar em campo, é quem escala a equipe e escolhe a estratégia do time. No storytelling o mesmo acontece com o autor, que por mais que esteja escrevendo a história, sempre diz que os personagens só fazem o que eles querem. Sim, porque bons personagens têm vida própria e não podem ir contra suas naturezas.

No futebol todos os olhos se fixam na bola. No storytelling existe o conceito do fio da meada, uma linha invisível que conduz a narrativa. Esse fio condutor pode ser um personagem em perigo, uma maleta com uma carga importante, o mistério de uma ilha e assim por diante. O importante é que essa esse elemento seja estimulante o suficiente para prender a atenção.

Numa saga como Harry Potter, o fio da meada é capaz de segurar a narrativa durante milhares de páginas ao longo de sete livros. Por outro lado, tem muito comercial que esse fio não resiste a 5 segundos. Só ver a contagem regressiva do Youtube. O futebol acontece em lances, que posteriormente pode ser compactado em melhores momentos. Já o storytelling se desenvolve ao longo de cenas.

Cada cena tem uma estrutura de começo, meio e fim ao redor de um conflito, e uma conclusão. Boas cenas acontecem em tempo real e despertam grande emoção. Quando o futebol é transmitido, uma nova figura entra em cena: o narrador, que tem a função de contar o que está acontecendo dentro de campo destacando detalhes que poderiam passar despercebidos pela audiência. No storytelling também existe o narrador. Nem sempre o narrador é confiável. Ele pode ser um personagem e estar enviesado ou até mesmo mentindo. Os grandes narradores são capazes de dar personalidade e até uma emoção a mais aos acontecimentos. No caso dessa Copa o case fica para a Fox Sport 2, que contratou o humorista Paulo Bonfá para narrar as partidas e com isso ganhou muita audiência.

Finalmente, o futebol só tem tanta força no Brasil e no mundo por existir a torcida. No storytelling esse papel quem assume são os leitores no caso da literatura e dos quadrinhos, a audiência no caso do cinema e dos seriados de TV, a plateia no teatro, o gamer dos videogames e o ouvinte das histórias orais. Para facilitar, chamo todos esses de atentos. Isso porque quem está assistindo, lendo ou ouvindo uma boa história, está com toda a sua atenção sintonizada: as duas mãos segurando o livro, o celular desligado no cinema e nem deixa alguém passar na frente da TV no último episódio do seriado favorito. Agora, todo o mundo só fala de futebol, mas quando a Copa acabar o assunto vai saturar e as pessoas vão buscar outras histórias. A sua marca está preparada para narrar?

Fernando Palacios é professor de storytelling da ESPM.

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