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12/ago/14 por Marina Magalhães

Por trás do provador da Mari Patriota

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Atire o primeiro cabide quem nunca pensou em espiar o que acontece por trás de um provador. A pernambucana Mari Patriota foi mais ousada nessa missão: espiou, revelou e ainda ganha dinheiro com isso. Foi nos tempos dos bicos como vendedora de loja que esta inquieta publicitária, logo no seu primeiro dia de trabalho, teve a ideia de entrar no provador das clientes e fotografar seus looks. Tranformou a ideia em projeto, o projeto em marca e hoje roda o mundo com o seu Projeto Provador, capturando – através das suas lentes – a diva hollywoodiana disfarçada no dia a dia das mulheres comuns. E até os homens conquistaram o seu espaço no provador da moça... Entre um clique e outro, em sua passagem por Portugal, o GogoJob também abriu as cortinas dessa fotógrafa multimídia para descobrir, em meio a outros segredos, como ela consegue fazer todo dia, a mesma coisa, de forma diferente.

GogoJob: Qual é a sua primeira lembrança como profissional com uma câmera na mão?

Mari Patriota: Como me formei em publicidade, lembro que durante o curso a gente pagava uma cadeira de Fotografia. Então, quando estava com 20 anos, sem trabalhar, tive a oportunidade de fazer um estágio em um desses sites de balada, o Entrada Vip. Eu nunca tinha pego numa câmera antes, queria trabalhar de todo jeito. O cara perguntou: “você sabe fotografar?”. E eu respondi: “Sim, eu sei, eu sei”. E já da primeria vez que eu peguei na câmera, as fotos se destacavam das fotos dos outros fotógrafos. Foi quando eu senti a câmera como uma extensão da minha mão, foi muito natural quando rolou. Eu me apaixonei, na verdade, não por fazer foto de balada, mas por fazer foto de gente, vi que gostava de gente.

GogoJob: E como surgiu o Projeto Provador?

Mari Patriota: Começou em 2009, numa loja no Shopping Center Recife, onde eu trabalhava como vendedora [na época queria ganhar um extra para fazer uma viagem a Amsterdã]. Depois de uma compra homérica de R$ 3 mil sem ao menos a cliente experimentar um dos produtos que comprava, percebi que existia um mercado potencial em busca de "prazeres momentâneos", seja por insatisfação, vaidade e/ou baixo auto-estima. Depois de perceber uma necessidade de mercado na qual as mulheres estavam cada vez mais insatisfeitas com sua aparência, bombardeadas pela mídia e seus jargões publicitários de beleza preestabelecidos, iniciei o trabalho de ensaios fotográficos em que a beleza real, vista por outros ângulos, sem produções e tratamentos de imagem, era o foco em questão.

GogoJob: O que os primeiros cliques desse projeto trouxeram de “novo”?

Mari Patriota: As fotografias começaram a ser feitas dentro dos provadores de roupa. À medida que uma mulher fazia as fotos e as exibia, outras mulheres se inspiravam e faziam o registro fotográfico também. O mais curioso é que o mercado de "books" já existia naquela época. Porém, incentivar mulheres nordestinas, com nível de formação superior completo (médicas, advogadas, psicólogas), que não tinham nenhuma ligação com moda, a comprarem ensaios em que elas se apresentavam com pouca roupa, sem nenhuma produção, e autorizar a veiculação de todo o material nos sites de relacionamento era algo inédito. Surgiu, assim, um serviço de ensaios fotográficos diferenciados, com cara de editorial de moda, mas sem nenhuma produção que descaracterizasse as mulheres. Nada de maquiagem, cabeleireiros ou coisas do gênero.

GogoJob: Como você conseguiu tirar as mulheres das lojas e transformar essa ideia em um novo produto?

Mari Patriota: Em outubro de 2012, observando o crescimento da concorrência entre fotógrafos de mulheres, inspirei-me no meu próprio life style como mulher viajante, independente e consumista para encontrar mais oportunidades de ampliar o Projeto Provador. Foi aí que percebi que poderia levar essas mulheres para fazer esses mesmos ensaios em lugares paradisíacos. Elas ganhariam a oportunidade de ter as fotos “da vida”, numa viagem diferente, em um lugar alucinante, no melhor estilo Provador: livre, desapegado, natural, cheio de vida e de novas perspectivas. Surgiu então mais uma derivante do Projeto: a Trip Provador. A partir disso, o Projeto deixou de ser apenas uma empresa de fotografia e passou a ser uma empresa que vende experiências, que vende estilo de vida.

GogoJob: Como você descobriu o seu público?

Mari Patriota: Em geral, são mulheres com idade entre 18 e 40 anos, pertencentes à classe B/C, informadas, ativas, independentes, que gastam com viagens e bem-estar. No projeto de fototurismo, a proposta está focada em mulheres e homens solteiros com o objetivo de proporcionar uma experiência única de viagem com todos os momentos registrados pela equipe Projeto Provador. Percebemos que, sobretudo as mulheres solteiras do Recife, buscavam algo de novo nas suas vidas, cansadas da rotina e do mesmo grupo social. Então propomos algo diferenciado, onde compram não apenas um pacote turístico, mas uma nova experiência a destinos rústicos, com a possibilidade de fazer novos esportes de aventura (como o surf, windsurf), de tirar o salto alto e ir curtir a vida.

GogoJob: Mais de 400 homens e mulheres já passaram pelas suas lentes. Foi difícil atingir o público masculino?

Mari Patriota: Fotografei mais mulheres; homens, bem menos. Como o homem do Recife tem uma mentalidade mais provinciana para certas coisas, como achar que fazer ensaio sensual de homem é coisa restrita a homossexual, tenho que explicar que não há nada demais em ter um registro dele também. Então, para o público masculino, tive que apelar para a parte dos esportes, daí os caras começaram a pagar para fazer isso. Eu sempre digo: “e aí, vai pegar a maior onda da tua vida e ninguém vai ver? Vai chegar contando a sua melhor manobra sem nada para comprovar que você fez?”. Esses momentos não podem ficar só na memória.

GogoJob: Já os ensaios femininos são mulcomuns (não modelos), em situações comuns (como andar de bicicleta, skate ou tomar banho de chuva), em lugares comuns (praia, ruas, lajes de prédio)... Como você consegue captar o extraordinário em circunstâncias tão cotidianas?

Mari Patriota: A mulher é muito sensual, da hora em que acorda a hora em que vai dormir, quando se abaixa para calçar o sapato, o jeito que arruma o cabelo... Todo o movimento da mulher é mais sensual que o do homem, que é mais brusco, o que não deixa de ser sexy também. Se a mulher passa na rua, é paquerada, se está no trabalho, atendendo o telefone, lendo um livro na praia ou fazendo qualquer movimento ela mostra sua sensualidade. E, acho que uma situação montada não é legal, não deixa ninguém à vontade, tira a naturalidade do negócio inteiro. O sexy está no natural.

GogoJob: criar a atmosfera ideal para desnudar o corpo e descobrir essa sensualidade mais natural nos fotografados?

Mari Patriota: É tudo feito da forma mais tranquila possível. Toda a minha comunicação com as mulheres parece não ter nada de profissional. Geralmente ela já viu o meu trabalho em algum lugar, entra em contato pelo Facebook, Skype ou email querendo fazer as fotos. Eu pergunto o que ela gosta, se prefere campo ou praia, por exemplo, passamos o briefing do que ela mais curte para adaptarmos as ideias. Se gosta de campo, digo que podemos fazer fotos dela acordando, vestindo aquela camiseta mais surrada, tomando café... No começo, elas ficam tensas, mas depois de 15 minutos tudo muda. Entendem que é tudo natural, que não tem frescura. Ah, também pergunto se ela é morena ou mais branquinha, para pensar a iluminação e as cores do lugar contrastando com a cor do corpo. Essa visão, de trabalhar com semiótica, semiologia, de usar cenário e luz impróprios e tirar leite de pedra disso eu tenho graças ao curso de publicidade.

GogoJob: O que você lembra de mais inusitado nos ensaios que fotografou?

Mari Patriota: Teve uma mulher que queria uma foto fazendo xixi. Eu disse: “claro, quer fazer xixi, mija aí!” (risos). Ela disse que era uma coisa que achava sexy, algo que deve ter visto em um ensaio da revista Trip. Era uma situação super corriqueira, da mulher parar o carro no meio da estrada, abrir a porta e fazer xixi. E ficava sexy desse jeito. Teve outra ocasião em que eu fotografei em Noronha, no meio de uma floresta, com uns bichos grandes passando e eu morrendo de medo que algum me capturasse ali (risos). Outra vez, estava à noite, também no meio do mato fotografando uma mulher quando ela disse: “tem alguma coisa ali, atrás de você”. Era um homem, um taradão que viu a cena e parou o carro, que por sinal era da empresa, no meio da estrada para tirar fotos com o celular.

GogoJob: Quais foram as primeiras providências tomadas na transformação desse hobby em “produto”?

Mari Patriota: No começo eu não tinha uma câmera boa, então alugava uma. O meu primeiro investimento foi comprar uma Canon 5D que um amigo trouxe de Nova Iorque... uma câmera mediana, mas era a que eu podia comprar no momento. Daí passei a trabalhar com ela e com o meu computador mais básico mesmo. Quando realmente o projeto começou a andar, troquei a câmera 5D por uma 7D, passei a usar Mac... No fundo, tudo começou de forma despretensiosa e começou a dar certo. Acho que o que me ajudou bastante foi ter sido formada em Publicidade e saber por onde caminhar, pensar em estratégias de marketing, transformar as oportunidades e os fatores externos em coisas positivas. Tudo hoje em dia se consegue fazer de graça com a internet. E se consegue atingir muita gente também. A TIC [Tecnologia da Informação e Comunicação] está totalmente interligada ao meu trabalho.

GogoJob: De que maneira?

Mari Patriota: Para começar, eu já havia trabalhado como diretora de arte em uma agência de publicidade, então eu já tinha base de diagramação. Fazia as fotos, diagramava, fiz o meu próprio site, o design do meu cartão, o layout de tudo. A net me ajudou bastante depois para fazer a parte de divulgação. Inicialmente, fiz um panfleto, mas vi que não deu certo. O que facilitou o crescimento foi investir nas redes sociais, como Facebook, Youtube, Vimeo e, mais recentemente, no Instagram... Como penso rápido, sou rápida, faço foto, diagramo, coloco logo nas redes sociais e em outros canais de divulgação. Com as redes sociais, meu trabalho conseguiu sair do Recife, onde eu já tinha um bom público através do boca a boca das mulheres que fazem o ensaio, mostram às amigas e trazem mais umas três para fazerem. Mas, esse lance de conseguir parcerias e patrocinadores, foi a internet que me ajudou.

GogoJob: Quais as principais estratégias usadas para fidelizar a marca?

Mari Patriota: Além dos ensaios e viagens, o Projeto Provador começou a realizar eventos e promover a concursos que envolvem fotografia, viagem e bem estar, como o “Prove Noronha com o Projeto Provador”, quando três vencedoras ganharam cinco dias na ilha de Fernando de Noronha com tudo incluso, além, claro, do registro fotográfico de toda a a viagem. Foi uma forma de dar visibilidade a todos os envolvidos, como as empresas patrocinadoras. Também lançamos o “SK8 também é coisa de menina”, um evento realizado no Parque Dona Lindu (Recife), onde os inscritos tinham aulas de yoga, noções de skate e registro fotográfico divulgado na fanpage do Projeto Provador, com o objetivo de incentivar a prática do skate entre as mulheres. Outra ação legal foi a “Naked Aptº 1401”, na qual voluntárias participavam de um ensaio nu, num apartamento vazio, cobrindo o rosto com máscaras, skates e sacos de papel, garantindo o anonimato. A ideia era fazer com que as mulheres se sentissem sufocadas por não poderem ligar seus corpos aos seus rostos.

GogoJob: Vem sendo a repercussão do projeto no Brasil? E fora do país, as pessoas conseguem compreender o conceito “Provador”?

Mari Patriota: Dentro do Brasil as pessoas já sabem que é um serviço pago de fotografia, ainda que eu faça outros projetos para dar visibilidade e agregar valor à marca, como os concursos sobre os quais já falei, o próprio “Naked”, em que as mulheres posaram completamente nuas e me autorizaram a publicar os ensaios depois. Na Indonésia e na Argentina já cheguei com alguns contatos, que perguntavam: “e as pessoas pagam para serem fotografadas?”. Então eu respondia que sim, que eram mulheres comuns, que queriam um trabalho diferenciado, e que se elas vissem também pagariam. No começo eu pegava algumas pessoas, formadoras de opinião, que poderiam me dar algum retorno, e fazia as fotos de graça. Logo apareciam outras querendo pagar para fazer. Na Itália mesmo, onde estive há pouco, fotografei várias mulheres, apesar da crise econômica. Em Portugal também, foram três meninas, isso porque passei pouquíssimo tempo. A aceitação é sempre boa, mulher é igual em todo canto do mundo. Sempre vaidosa, não se importa de gastar dinheiro com isso.

GogoJob: E onde mais o Projeto Provador quer chegar?

Mari Patriota: Quero tocar o Projeto Provador em duas vertentes: uma parte de turismo, de ter uma agência de viagens diferenciada, e uma produtora de fotografia e vídeo. Na área visual, a ideia é criar uma produtora com linguagem diferenciada de fotografia e vídeo para fazer desde ensaios sensuais a companhas publicitárias, prezando sempre o espírito particular do Projeto Provador. Já vou começar a procurar gente para trabalhar comigo, fazer uns estágios curtinhos...

GogoJob: E onde você busca inspiração para fazer todos os dias a mesma coisa de maneira diferente?

Mari Patriota: Todas as vezes é diferente. As mulheres são diferentes, então o meu trabalho já não é a mesma coisa todo dia. A conversa muda, cada uma tem uma coisa diferente para mostrar... Além do que, às vezes acordo às quatro da manhã para fazer uma foto e vejo a mulher naquela empolgação... já me instigo!

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Twitter: @ProjetoProvador

(Entrevista feita por Marina Magalhães, correspondente internacional do GogoJob).

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Comentários

  1. Autor:
    Mari Patriota
    Cidade:
    recife
    Estado:
    pe
    Data:
    13/set/13
    Hora:
    10:30

    Demais, Bob Ferraz e Marina. O prazer foi todo meu em cruzar o caminho de vocês em Lisboa! :)

  2. Autor:
    ricardo wagner
    Cidade:
    jp
    Estado:
    pb
    Data:
    21/out/13
    Hora:
    14:22

    lindas fotos parabéns pelo trabalho =)

  3. Autor:
    DAYSE HELENA BATISTA DE ALBUQUERQUE
    Cidade:
    RECIFE
    Estado:
    PE
    Data:
    05/nov/13
    Hora:
    13:56

    COMO ESTOU FELIZ POR VOCE,E AINDA MAIS POR TER FEITO UMA PEQUENA
    PARTE DESSA SUA HISTORIA LÁ NO COMECINHO...RSRSR CHEGUEI ATE A TIRAR UMAS FOTOS TAMBEM..ADOREIIIII GOSTARIA DE REVE-LA...
    MUITAS AMIGAS QUEREM MUITO PARTICIPAR DO PROJETO..COMO FAÇO?!!BEIJOSSS

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